Um país continental como o nosso, com tantas influências, tem uma riqueza gastronômica que faz inveja a qualquer outro — mesmo que a UNESCO ainda não tenha reconhecido oficialmente nossa culinária como Patrimônio Imaterial da Humanidade, como fez recentemente com a italiana.
Nada contra o prêmio dos nossos amigos da bota — muito pelo contrário. A comida italiana é maravilhosa, e os italianos que vieram para cá deixaram marcas profundas na nossa cozinha. Afinal, para boa parte do interior paulista e mineiro, domingo sem macarrão com frango nem é domingo.
Mas a comida brasileira tem uma riqueza que, muitas vezes, nem nós mesmos conhecemos. Alguns pratos regionais ganharam espaço e começaram a aparecer em restaurantes de outras partes do país, mas ainda é pouco diante da nossa diversidade culinária.
Leia também: Dona Vera quer cuidar dos netos: proprietária do Canteiros & Temperos coloca restaurante à venda
Recentemente, fiz uma ousadia: misturei culinária amazonense com litorânea e preparei uma casquinha de siri com tucupi — modéstia à parte, uma combinação dos deuses! Mas ninguém sabia o que era o tal tucupi — o caldo extraído da mandioca-brava, venenosa na origem, mas domesticada pelos povos indígenas da Amazônia e transformada em iguaria.
E não para por aí. Quem, fora do Norte, conhece massa puba, farinha-d’água ou goma de tapioca? No Centro-Oeste, o pequi reina absoluto, mas é difícil encontrá-lo fora de lá, mesmo em conserva. Já o capote ao molho pardo, a carne de bode guisada na rapadura, o cordeiro com butim e o arroz com leite de ovelha são tesouros regionais que raramente cruzam fronteiras estaduais.
No fundo, o desconhecimento é também um convite à descoberta. Conhecer nossa culinária é conhecer nossas origens: indígenas, africanas, portuguesas, holandesas, italianas, japonesas… cada uma deixou seu tempero, literalmente. E hoje foi dia dela: comida caipira no fogão a lenha.
Ah, o milho! Base de tantas receitas, sustentou bandeirantes e famílias inteiras. O cheiro de defumação do fogão a lenha tem o poder de despertar lembranças e abrir o apetite. Quem nunca disse, com um sorriso maroto, que “comida feita no fogão a lenha é outra coisa”, que atire a primeira pamonha!
Falando nela, tivemos pamonha salgada de entrada e pamonha doce para o café da tarde — e posso garantir: era pura de milho, mesmo sem vir de Piracicaba!

O prato principal foi uma homenagem à Amazônia: camarão com leite de castanha-do-pará. Uma combinação cremosa, saborosa e surpreendente. Vantagens de morar no Vale do Paraíba — aqui, em uma hora, você vai do litoral à serra e encontra de tudo um pouco.

E, para encerrar, a sobremesa: pavê de cupuaçu com geleia de cajá e biscoitos champanhe (savoiardi). Um encontro entre Norte, Nordeste e Itália. O pavê, aliás, é o doce mais brasileiro que existe — porque sempre tem alguém que diz:
— “É pavê ou pacumê?”

A gastronomia brasileira é um espelho do nosso povo: diversa, criativa e, às vezes, subestimada. Temos ingredientes que o mundo ainda vai descobrir — e, quando a UNESCO reconhecer oficialmente nossa culinária, o resto do planeta vai entender o que a gente já sabe: o Brasil é o maior restaurante a céu aberto do mundo.
Para comer sem culpa: O que achei do Milá, o novo restaurante mediterrâneo de SJC
Enquanto isso, seguimos cozinhando com alma, misturando tradição e improviso, e celebrando cada sabor como quem diz — com aquele sotaque gostoso do interior:
“A gente mistura tradição, fogo e afeto — e o resultado é sempre bom demais.”