
Em meio ao movimento da rua Madre Paula, uma das mais agitadas de São José dos Campos, há um pequeno oásis de verde, flores e calma. Um lugar que parece suspenso no tempo, escondido atrás de uma placa discreta que muitos motoristas nem percebem: o restaurante e creperia Canteiros & Temperos.
Ali, numa casa rústica e acolhedora, quem visita sente uma mudança quase mágica da pressa da cidade ao sossego do interior. Foi nesse cenário que Dona Vera, há 20 anos, transformou um sonho em realidade: criar um espaço onde o sabor, o afeto e a natureza se encontrassem.
Com a recente chegada dos netos, porém, Dona Vera passou a administrar o restaurante sozinha. Para equilibrar a rotina, optou por abrir apenas à noite. “Sozinha eu não daria conta de manter o dia todo funcionando”, conta.
Agora, ela decidiu que era hora de encerrar um ciclo e anunciou a venda do restaurante. A notícia gerou comoção entre os clientes, que temem que o espaço perca sua essência sem ela.
“Quero morar na Mantiqueira, abrir a janela e ver a natureza. Quero ter tempo para curtir os netos. Espero encontrar alguém que mantenha o que foi construído ao longo desses 20 anos. A vida é feita de ciclos, e este está chegando ao fim“, reflete.
Uma ideia que floresceu da Vejinha
No início dos anos 2000, após anos acompanhando o marido e cuidando dos filhos em diferentes cidades, Dona Vera fixou residência em São José dos Campos e decidiu retomar as atividades profissionais. Empreendedora por natureza, encontrou inspiração em uma edição da Veja São Paulo — a famosa Vejinha —, que destacava o sucesso das creperias na capital.
A ideia de oferecer algo diferente do trivial, voltado a brunchs e lanches da tarde, começou a ganhar forma. Curiosa, foi conhecer pessoalmente várias creperias. Nessas visitas, conheceu um francês que já atuava no ramo e que se ofereceu para prestar uma consultoria. Era o início de uma nova jornada.
O nascimento do Canteiros


Na época, os classificados de jornal ainda eram o principal meio de encontrar imóveis comerciais. Foi assim que o destino se manifestou: um anúncio de um espaço diferenciado na Vila Ema chamou sua atenção.
Sem perceber de imediato, ela já conhecia o lugar — aos fundos de uma loja de móveis havia uma charmosa casa de chá que visitara e pela qual se encantou. Ao ligar para o número do anúncio, descobriu que se tratava do mesmo espaço.
Havia, no entanto, uma dúvida: o fato de o restaurante ficar nos fundos e ser pouco visível. Coube ao consultor francês lançar o desafio: “Se você não quiser ficar, eu fico.” Foi o incentivo que faltava. Após quatro meses de conversas, o negócio foi fechado.
Inauguração
O primeiro passo foi chamar a Vigilância Sanitária, para adequar o local às normas de um restaurante. Depois, vieram a arquiteta e, finalmente, as obras. Em 16 de março de 2006, o Canteiros & Temperos abriu suas portas. Durante o primeiro mês, o consultor francês permaneceu no local, ajudando no treinamento da equipe e na criação do cardápio — que combinava crepes doces e salgados, leves e saborosos.
Sem inauguração oficial, mas com boas ideias, duas jovens profissionais de propaganda fizeram flyers acompanhados de sachês de chá para Dona Vera distribuir entre clientes e amigos. O restaurante conquistou seu público aos poucos pelo boca a boca. “Me coloquei realmente de corpo e alma para dar certo”, lembra a empresária.
Leia também: Para comer sem culpa: o que achei do Milá, o novo restaurante mediterrâneo de SJC
A falta de um garçom levou o filho de Dona Vera a ajudar no restaurante. Formado em Administração, ele começou cuidando da parte gerencial, mas logo foi contagiado pela paixão da mãe pela gastronomia.
Fez cursos, passou a atuar na cozinha e acabou assumindo o comando. Foi nessa fase que o Canteiros ampliou o cardápio, passou a servir almoços, brunchs de fim de semana e lançou produtos próprios — chás (combinações feitas na casa), patês e cremes (nos cafés da manhã) — que logo se tornaram sucesso e estimularam a família a decidir abrir as portas todos os dias, sempre com casa cheia.

Crescimento e aprendizado
Com o negócio em expansão, Dona Vera buscou capacitação. Participou de cursos e eventos do SEBRAE, que tiveram papel essencial na consolidação do restaurante — desde orientações sobre manipulação de alimentos e controle de desperdício até a gestão financeira e organizacional. Outro diferencial sempre foi o atendimento. Para ela, o segredo estava em acolher.
“Se você sai de casa para comer, precisa ser bem recebido e sair satisfeito. Sorriso no rosto, respeito e atenção tornaram-se regra. E, se algo não saísse como o esperado, o importante era resolver rápido e da melhor forma possível.“
Com o tempo, o charme do lugar levou os clientes a propor eventos, especialmente casamentos. “Era muito interessante. Os noivos traziam suas equipes de decoração, que misturavam sofisticação com a rusticidade do espaço, e isso sempre dava muito certo”, relembra.
A atmosfera do Canteiros, com seu jardim e sua iluminação acolhedora, tornou-se cenário de muitas celebrações e memórias afetivas.
Você pode gostar: Shoppings de São José têm programação especial de Carnaval; confira
O encanto permanece
Ainda em funcionamento enquanto aguarda um novo proprietário, o Canteiros & Temperos continua sendo um refúgio de tranquilidade e sabor no coração de São José. Nas mesas, lápis de cor convidam os clientes a pintar mandalas — uma atividade pensada para relaxar antes, durante ou após saborear os crepes.
As combinações variam, mas o resultado é sempre o mesmo: conforto, leveza e um toque de magia. Ainda é tempo de se deixar encantar pela creperia de Dona Vera — um espaço onde o tempo desacelera e a simplicidade ganha sabor.
