
Comecei a cozinhar numa república onde a culinária era quase um esporte radical. Não havia faca de chef nem tábua de corte bonitinha — havia uma faca, cega, afiada no fundo do prato ou na borda da pia.
Fogão de quatro bocas? Só no manual. Na prática, duas queimavam a comida; as outras duas serviam de apoio emocional. E as panelas de alumínio, especialistas astronômicas em transformar arroz branco em carvão artístico.
Foi nesse cenário de guerra (ou laboratório de sobrevivência) que nasceu meu interesse pela cozinha. Não por paixão, mas por necessidade. Um dia, um ovo despencou direto no ralo. Era meu almoço. Fugiu. Ali eu percebi: ou aprendia a cozinhar ou passava a vida derrotado por um ovo.
Corri atrás. Pedi ajuda às vizinhas, aos colegas da faculdade, observei churrascos e reuniões. Aprendi olhando, testando, errando muito e acertando aos poucos. O progresso foi lento, porém saboroso: cada acerto valia tanto quanto nota boa em prova.
Pouco a pouco, minha cozinha virou set de filmagem gourmet: facas reluzindo como medalhas olímpicas, panelas de fundo triplo, ferro fundido laqueado, mixer importado, termômetro digital, batedeira planetária — usados com amor (e, às vezes, com medo de arranhar o inox).
Agora namoro um forno combinado, uma Thermomix com mais de mil receitas na memória e um sous-vide capaz de entregar o mítico “ovo perfeito”. Um sonho nerd-culinário!
Mas, ultimamente, pergunto-me: será que esses gadgets fazem a alma da cozinha? Eletrodomésticos que prometem transformar qualquer mortal em chef três-estrelas, bastando seguir o manual como GPS culinário… definem um prato bom?
A dúvida ressurgiu quando assisti ao novo reality gastronômico — aquele que promete revelar o próximo grande chef brasileiro. No episódio dos amadores, a história de cada um e a lembrança de para quem costumam cozinhar (pai, avó, família, amigos) falaram mais alto que a parafernália. Comida que emociona não veio da batedeira high-tech, mas da memória afetiva.
Quer um exemplo prático?
Dia dos Namorados, dia de semana. Sem reservas caras nem horário marcado. Mãos à obra! Menu afetivo e amigo do orçamento: hambúrguer caseiro de peito com acém, queijo muçarela derretido, alface crocante. No topo, as iniciais dos nossos nomes e um coração desenhados com ketchup.

Acompanhamento: batatas pont-neuf (nome pomposo para palitos grossos fritos em duas temperaturas — maciez por dentro, crocância por fora). Simples, sim. Mas temperado com amor. Algum restaurante estrelado oferece esse nível de personalização sem cobrar couvert?

Vegetarianos chegando de surpresa? Salada de folhas verdes, cajus laminados salteados em redução de suco de uva (truque para imitar balsâmico sem treta) e castanhas-do-Pará: sofisticação que vem da intenção, não da dificuldade.

Almoço com o filho? Filés de coxa e sobrecoxa dourados com alecrim, molho de mel e mostarda, batatas duquesa modeladas à mão, uma a uma. Custo honesto, sabor alto, afeto máximo. No restaurante? “Suprême de Volaille à la Moutarde Douce, accompagné de Pommes Duchesse dorées” — show, porém caro!

Em resumo, não é a Thermomix que cria memória afetiva. Não é o forno combinado que carrega lembrança de infância. É a mão que tempera pensando em quem vai comer.
Claro, tecnologia ajuda: economiza tempo, garante precisão e libera minutos preciosos para aproveitar a mesa — nosso bem mais escasso. Um ovo frito em panela antiaderente decente, um bife bem selado, um feijão na pressão seguem imbatíveis, sobretudo quando sobram minutos para a conversa.
Tempo esse que se camufla nas produções fulminantes da internet: receita em dois minutos, sem aviso sobre câmera, luz, corte, edição e equipe de bastidores. Já os chefs profissionais cozinham para clientes: técnica sem perdão, excelência cobrada no prato e na conta. Usam tecnologia para criar pratos espetaculares que justificam o aplauso (e a fatura). É outro jogo.
Mas convenhamos: se a vida te der um sous-vide, ótimo; se te der só uma panela velha, frita um ovo (e segura firme pra ele não escapar de novo). No fim das contas, o que vale é louça suja com boa história, garfo raspando prato vazio e gente saindo da mesa de barriga cheia e coração quentinho. Bon appétit… e até a próxima aventura culinária!
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