
Fim de expediente. Segui direto para o Parque Vicentina Aranha para aproveitar a abertura do Mais Gastronomia. Chegamos cedo, mas o movimento já era intenso. Passamos rapidamente por algumas barracas, observando produtos, cardápios e possibilidades. Era um reconhecimento de terreno. Afinal, degustar também exige planejamento.
A ideia era simples: conhecer o evento, identificar o que mereceria uma visita mais detalhada nos dias seguintes e organizar as futuras postagens. Missão cumprida.
Hora de um vinho, afinal, era sexta-feira. Sentamos para conversar, ouvir a ótima banda que já se apresentava e aproveitar aquelas pequenas coisas que tornam a vida mais agradável. Boa companhia, música ao vivo, gastronomia e uma taça de vinho. Poucas combinações conseguem ser tão eficientes para nos convencer de que tudo está exatamente onde deveria estar.
Mas nem sempre os planos saem como planejamos. De forma súbita, sem qualquer aviso prévio, uma dor intensa interrompeu a conversa. Em poucos minutos eu não conseguia mais falar direito, caminhar ou sequer pensar em comida. Pouco depois estava internado em uma UTI com um diagnóstico nada simpático: tromboembolismo pulmonar bilateral difuso.
Traduzindo para quem não fala “mediquês”: algo potencialmente fatal. Assustador para qualquer pessoa. Talvez ainda mais para quem é médico e conhece exatamente o significado das palavras escritas no prontuário. Felizmente, poucos dias depois, aqui estou. Não foi desta vez.
Em casa, repousando e praticamente sem sintomas. Ou melhor, pensando bem, com alguns sintomas sim. Gratidão. Amor. Amizade. Carinho. Uma enorme vontade de valorizar aquilo que tantas vezes deixamos escondido sob as preocupações da rotina.
Sentimentos assim merecem um brinde. Nada melhor que uma taça de vinho. Sim, eu sei. Os cardiologistas, pneumologistas e clínicos de plantão provavelmente prefeririam água. Mas hoje peço licença para discordar educadamente.
O vinho é muito mais do que uma bebida. É um dos maiores símbolos culturais da humanidade. Há mais de oito mil anos acompanha nossa história, participou de celebrações religiosas, coroações, acordos políticos, casamentos, reencontros e incontáveis refeições em família. Poucas coisas conseguiram unir tantos povos, culturas e crenças em torno da mesma mesa.
E, curiosamente, ao longo dessa longa trajetória, poucas figuras se transformaram tanto quanto o sommelier.
Os ancestrais dos sommeliers modernos estavam muito distantes das adegas climatizadas, das cartas de vinho e das harmonizações que conhecemos hoje. Em tempos de reis, impérios e conspirações palacianas, cabia a determinados homens a responsabilidade de provar os vinhos antes que eles chegassem à mesa de seus senhores.
Era uma função que misturava confiança, lealdade e coragem. Em determinadas épocas, um simples gole poderia representar muito mais do que o prazer da degustação. Poderia representar um risco real. Era uma profissão em que, simbolicamente ou não, arriscava-se a vida por uma taça de vinho.
Do açaí com castanhas ao macarrão chinês: um guia do que provar no festival Mais Gastronomia, em SJC
Confesso que essa história ganhou um significado diferente para mim nos últimos dias. Não porque houvesse qualquer veneno na taça que eu tomava tranquilamente naquela sexta. Muito pelo contrário, o vinho estava excelente. O problema veio de outro lugar e me lembrou algo que normalmente preferimos ignorar: a vida é muito mais frágil do que imaginamos.
Talvez seja justamente por isso que o vinho fascine tanto a humanidade. Porque ele nunca foi apenas uma bebida. É um símbolo de celebração diante da incerteza.
Os antigos sommeliers protegiam seus reis dos perigos que poderiam estar escondidos dentro da taça. Os sommeliers modernos cumprem uma missão infinitamente mais agradável. São eles que nos apresentam regiões, produtores, castas, histórias e culturas. São eles que transformam um líquido dentro de uma garrafa em conhecimento, memória e experiência.
Se antes o sommelier ajudava a proteger a vida que estava diante da taça, hoje ele nos ajuda a perceber a beleza da vida que existe dentro dela. E talvez essa seja a verdadeira magia do vinho. Uma garrafa aberta raramente fala apenas de uvas.
Ela fala de encontros. De amizades. De família. De amor. De histórias que merecem ser lembradas. E, às vezes, como aconteceu comigo, fala também de gratidão.
Por isso, neste 3 de junho, Dia Internacional do Sommelier, meu brinde vai para aqueles que dedicam suas vidas a estudar e compartilhar o universo do vinho. Profissionais que nos ajudam a compreender que uma garrafa pode conter muito mais do que aromas e sabores. Ela pode conter geografia, história, cultura, tradição e emoção.
Garrafa aberta. Vinho servido. Deixe-o respirar um pouco. Observe as lágrimas que escorrem lentamente pela taça. Gire o vinho com calma para despertar seus aromas. Perceba as frutas frescas ou maduras, as especiarias, as flores, a madeira, o café, o chocolate ou qualquer outra lembrança que ele queira revelar. Depois leve-o à boca. Sem pressa.
Porque algumas experiências não foram feitas apenas para serem degustadas. Foram feitas para serem vividas. E quando a morte passa perto o suficiente para que possamos enxergá-la, aprendemos algo que nenhum livro de medicina, nenhum curso de degustação e nenhuma adega do mundo é capaz de ensinar.
O verdadeiro valor da taça nunca esteve no vinho. Sempre esteve nas pessoas com quem a compartilhamos. Saúde!
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