
Com a chegada do frio, começa também uma das temporadas mais movimentadas e saborosas do ano no Vale do Paraíba e nas serras da região. É quando a gastronomia ganha destaque e inicia uma verdadeira disputa pela atenção e paladar de moradores e turistas apaixonados pelos sabores típicos do inverno.
Nessa época, os estômagos roncam por caldinhos, sopas e chocolates quentes que preenchem o corpo de calor, mas existe um desejo ainda maior por um prato que traduz conforto a crianças, adultos, senhores e senhoras: o fondue.
Surgido entre camponeses para evitar o desperdício de queijos e pães que perdiam frescor conforme as temperaturas caíam, ele se tornou o queridinho da estação — e mais abaixo não apenas conto sua origem, mas também deixo duas receitas para você planejar sua noite de fondue.
SJC x Jacareí na briga do bolinho caipira
A temporada já começou oficialmente com o tradicional Arraiá do Frederico, reunindo música, dança, artesanato e uma infinidade de comidas típicas. Entre todas as atrações, um destaque absoluto segue roubando a cena: o bolinho caipira. Crocante por fora, quente por dentro e carregado de tradição, ele alimenta uma rivalidade gastronômica antiga entre cidades vizinhas.
De um lado, Jacareí defende com orgulho seu tradicional bolinho de porco, reconhecido como patrimônio cultural da cidade. Do outro, o joseense raiz segue afirmando que o verdadeiro bolinho precisa ser de carne. Mas a tradição também evolui. Hoje já surgem versões vegetarianas, recheadas com cogumelos e legumes, mostrando que até os pratos mais tradicionais conseguem dialogar com novos públicos sem perder sua identidade.
E os arraiás estão apenas começando. Nas próximas semanas, festas juninas irão ocupar bairros, praças e cidades inteiras da região, especialmente nos finais de semana, enchendo as noites frias de música, bandeirinhas, fogueiras e receitas de família disputadas quase como troféus.
Vinhos…
Enquanto os arraiás aquecem o público com tradição popular, os vinhos começam a ganhar espaço. A temporada se inicia com a tradicional XV Feira de Vinhos Amicci, abrindo caminho para uma sequência de eventos gastronômicos, harmonizações e menus especiais preparados para o inverno.
Restaurantes da região passam a apostar em ambientes acolhedores, cartas de vinho reforçadas e experiências que remetem diretamente ao clima europeu tão associado às baixas temperaturas.

Todos amamos caldinhos
E claro, não poderiam faltar os tradicionais caldinhos, presença obrigatória nas noites frias joseenses. Sopas, cremes e receitas encorpadas voltam aos cardápios e às mesas, preparando o cenário para outro evento já consolidado no calendário regional: o Festival Mais Gastronomia, que a cada edição amplia o número de expositores, reforça a qualidade da programação musical e promete novamente uma participação maciça do público.
O que tem de bom na Serra da Mantiqueira
Mas enquanto o Vale vive a força das festas populares e dos sabores caipiras, é na serra que o inverno ganha seu lado mais romântico. Entre os cantos e encantos da Mantiqueira, da Bocaina e da Serra do Mar, o vinho praticamente faz parte da paisagem. Multiplicam-se os jantares harmonizados, os hotéis acolhedores e os restaurantes que transformam o frio em convite ao romance e à contemplação.
Em Campos do Jordão, o Festival do Pinhão já movimenta a temporada e inspira diversas cidades serranas a celebrarem também suas tradições gastronômicas. Depois chegam os festivais da truta, dos chocolates, dos vinhos e tantas outras delícias criadas especialmente para aquecer corpo e alma durante os meses mais frios do ano.
Mas, em meio a toda essa disputa entre arraiás, pinhões, vinhos, trutas e caldinhos, vamos ao protagonista que consegue circular com elegância tanto pelo Vale quanto pela Serra: o fondue.
De onde vem o fondue?
Talvez o mais curioso seja justamente sua origem. Hoje associado ao requinte das noites frias, aos restaurantes sofisticados e às experiências românticas, o fondue nasceu de maneira simples entre os camponeses dos Alpes suíços. Durante os rigorosos invernos europeus, o frio endurecia os queijos e o pão já não estava fresco. Para evitar desperdícios, famílias passaram a derreter os pedaços restantes em panelas aquecidas sobre o fogo. O vinho era incorporado não apenas pelo sabor, mas também para ajudar na textura e manter a mistura homogênea.
Era uma refeição coletiva, quente e compartilhada ao redor da mesa. Talvez por isso o fondue carregue até hoje esse aspecto afetivo tão forte. Comer fondue nunca foi apenas sobre alimentação. Sempre foi sobre convivência.
Décadas depois, o prato atravessou fronteiras e ganhou sofisticação. A partir dos anos 1960 e 1970, impulsionado pela influência europeia e pelo crescimento do turismo de inverno em cidades como Campos do Jordão e Gramado, o fondue passou a simbolizar elegância, romantismo e experiências gastronômicas ligadas ao frio.
Vieram então as famosas casas especializadas, os réchauds sobre as mesas e também a popularização da raclette — outra tradição alpina baseada no queijo derretido servido de maneira compartilhada.
Famosinho no Brasil
Mas foi o fondue que realmente conquistou o brasileiro. Primeiro na versão clássica de queijo, inspirada nos modelos suíços preparados com gruyère e emmental. Depois surgiram as versões de carne, servidas na pedra quente ou no óleo, acompanhadas por molhos variados. E finalmente o irresistível fondue de chocolate, que acabou se tornando praticamente obrigatório nos roteiros de inverno da serra.
Em Campos do Jordão, restaurantes tradicionais como o Ludwig Restaurant e o Matterhorn ajudam a manter viva a experiência mais clássica e sofisticada do fondue europeu. Já o Só Queijo se tornou referência ao explorar a cultura dos queijos e aproximar o prato dos produtos artesanais da Serra da Mantiqueira.
Enquanto isso, restaurantes contemporâneos como o Moringa Mantiqueira reforçam o movimento de valorização dos ingredientes regionais e produtores locais.
Em cidades como São Bento do Sapucaí, Gonçalves, Santo Antônio do Pinhal e Cunha, cresce também a valorização dos produtos artesanais da montanha. Queijos maturados, embutidos regionais, cogumelos frescos, azeites, pinhão e vinhos nacionais passam a dialogar cada vez mais com o universo do fondue e da raclette em releituras contemporâneas da culinária de inverno.
Fondue de chocolate tem CPF
No lado doce, o fondue de chocolate ganhou identidade própria no Brasil e virou atração principal das temporadas de frio. Morangos, uvas, banana, marshmallow e pedaços de bolo passaram a dividir espaço ao redor da panela quente, transformando a sobremesa em uma experiência quase obrigatória nas noites de inverno da serra.
Algumas casas apostam em chocolates mais artesanais e combinações contemporâneas, enquanto outras mantêm a versão mais tradicional e afetiva, exatamente como o público aprendeu a gostar ao longo das décadas.
E talvez esteja justamente aí o segredo do fondue permanecer tão atual. Ele funciona tanto para o romantismo silencioso de um casal diante do frio da serra e de uma taça de vinho, quanto para a alegria dos encontros entre amigos e família ao redor da mesa. O fondue desacelera. Obriga as pessoas a esperarem, conversarem e compartilharem.
Em tempos de refeições rápidas e rotinas aceleradas, poucas experiências gastronômicas ainda conseguem transformar o ato de comer em convivência. E talvez por isso, entre arraiás, vinhos, pinhões, trutas e caldinhos, o fondue continue ocupando um lugar especial nos invernos do Vale e da Serra: não apenas por aquecer o corpo, mas principalmente por aproximar as pessoas.
A minha receita tradicional de fondue de queijo
A versão mais clássica do fondue suíço continua sendo também a mais elegante. Simples, quente e feita para compartilhar.

Ingredientes:
- 200g de queijo gruyère ralado
- 200g de queijo emmental ralado
- 1 dente de alho
- 1 cálice de kirsch (opcional)
- 300ml de vinho branco seco
- 1 colher de chá de amido de milho
- Noz-moscada e pimenta-do-reino a gosto
- Pães italianos cortados em cubos
Modo de preparo:
Esfregue o alho no interior da panela de fondue. Em fogo baixo, adicione o vinho branco e aqueça sem deixar ferver. Acrescente os queijos aos poucos, mexendo continuamente até derreter completamente. Misture o amido dissolvido no kirsch e incorpore à panela para dar estabilidade e cremosidade. Finalize com noz-moscada e pimenta-do-reino.
Sirva imediatamente acompanhado de pão italiano, batatas cozidas ou legumes.
Agora, a minha receita clássica de fondue de chocolate
No Brasil, o fondue de chocolate acabou ganhando vida própria e virou praticamente obrigatório nas noites frias da serra.
Ingredientes
- 300g de chocolate ao leite
- 100g de chocolate meio amargo
- 1 caixa de creme de leite
- 1 colher de sopa de conhaque ou licor (opcional)
Acompanhamentos:
- Morangos
- Banana
- Uvas
- Marshmallow
- Cubos de bolo simples
- Wafer ou churros
Modo de preparo:
Derreta os chocolates em banho-maria ou em fogo bem baixo. Acrescente o creme de leite e misture até atingir textura lisa e cremosa. Finalize com o licor, se desejar.
Sirva quente na panela de fondue acompanhada das frutas e doces.