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    Ofício das Palavras

    O rio de minha infância

    24 de agosto de 2024Nenhum comentário3 Minutos de Leitura
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    No mês passado, fui passar uns dias na cidade natal, para resolver pendências familiares. São 400 quilômetros de estradas planas a noroeste de São Paulo. Os prédios, o preto, o cinza. O concreto, a esteira de asfalto.

    O verde vem surgindo lá na frente. Aos poucos já está espalhado em meu campo de visão. Ouço Dulce Pontes, cantora portuguesa, voz cristalina, céu azul sem manchas. Meu avô materno possuía um acento português que nos fazia rir, ao perguntar para qual festa estávamos a fazer os bolos de barro. Velho elegante em seus trajes de sarja cáqui e chapéu panamá.

    (Crédito: pexels)

    Casa da avó, cheiro de terra seca, sol de pimenta vermelha ardendo nos olhos. Criançada solta no terreiro, o fogão de lenha, a lida com a carne do porco matado na chácara, o funil de bico comprido para encher as linguiças, depois penduradas para a defumação. Tenho na ponta do dedinho direito uma cicatriz feita dentro da máquina de moer, ajudando a avó. O cachorro perdigueiro, as codornas, os macucos. Limão cravo com sal, jabuticabas em excesso, pontas das unhas encardidas de tantas mexericas.

    O frentista do posto pergunta quem são meus parentes. Digo o nome de meu pai. Sim, ele o conheceu. Aliás, um tio seu, diz o homem, aquele da caminhonete branca, abastecia aqui toda semana. Antigamente era a caminhonete azul, que levava a molecada toda, de calções curtos e pé no chão, para o riacho do sítio. Fazia muito calor. O céu ficava dormente, suado, pronto para despencar o aguaceiro no final da tarde.

    O moderno termômetro na Praça da Matriz indica 38 graus e são duas da tarde. Visito a família, preciso ir embora, me despeço dos primos, das lembranças. Vou deixando para trás, o gosto da pamonha enrolada em palhas perfeitas, as balas de coco esticadas no mármore da pia.

    Digo ao primo, nas próximas férias voltarei, mataremos um porco, tomaremos cervejas e encheremos linguiças. Sei que quando chegar a época terei outros compromissos e que dificilmente voltarei. Não voltarei porque na verdade, eu nunca saí de lá.

    (Ontem, o primo mandou um vídeo das queimadas na região. Toda a poesia de antes se derrete nas chamas)

    (Crédito: pexels)

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    Tati Iaconelli e May Parreira

    Tati Iaconelli e May Parreira

    May Parreira é psicóloga, professora, supervisora e terapeuta há 25 anos. Sua filha, Tati Iaconelli, é formada em propaganda e marketing. Juntas, comandam o Ofício das Palavras, editora e estúdio literário que tem como objetivo lançar novos talentos da língua portuguesa.
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