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    Sobre objetos de resistência

    Entre telas infinitas e informações descartáveis, o livro físico sobrevive em um mundo dominado pelas “não-coisas”
    28 de maio de 2026Nenhum comentário5 Minutos de Leitura
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    (Créditos: Imagem gerada com IA)

    Pra fugir daquele papo batido de “ah, mas eu amo o cheiro do papel” — que cá entre nós, não sustenta nenhum argumento —, a real é que o livro físico resiste por motivos bem mais profundos. Dando um mergulho rápido na filosofia (prometo que sem jargão chato), dá pra entender a permanência por três ângulos que se completam: o treino do cérebro (como o formato físico dita o ritmo da atenção e protege a mente da dispersão das telas); o peso da matéria (o nosso corpo precisa da textura, do volume e do limite físico do objeto para processar a experiência); o rito no espaço e no tempo (o livro físico funciona como um marco no dia a dia, cria uma fronteira real contra a pressa e a correria do mundo digital).

    O conceito de “não-coisas” ganhou destaque no debate contemporâneo com a divulgação da obra do filósofo Byung-Chul Han, especialmente no livro Não-coisas: Reviravoltas do mundo da vida (2021). Ele usa o conceito para diagnosticar a transição da sociedade industrial para a sociedade da informação, alterando profundamente a nossa relação com a realidade, com a memória e com a linguagem. Para simplificar a história, a lógica é mais ou menos esta:

    Historicamente, as coisas (objetos físicos, táteis, duráveis) estruturam a existência humana; oferecem uma sensação de permanência, habitam o espaço e acumulam o tempo (através do desgaste, do valor afetivo e da história). As coisas impõem uma resistência física e exigem estabilidade.

    As não-coisas são as informações, os dados e os fluxos digitais. Elas não ocupam o espaço físico de maneira convencional e não duram; elas se atualizam, flutuam e desaparecem.

    Ai, ai, meus ais. O mundo atual não é mais povoado por objetos que oferecem permanência, mas por informações efêmeras que exigem atenção constante.

    O smartphone é o ápice da não-coisa: ele desmaterializa inúmeros objetos físicos (o livro, a carta, o relógio, o mapa, o álbum de fotografias) e os transforma em uma tela de projeção de dados biográficos e algoritmos.

    A grande sacada de Han é mostrar que a gente não é mais “dono” de nada, e não criamos mais vínculo com as coisas; só “acessamos” e consumimos dados. Pensa: um livro físico ou um objeto que você herdou da família carregam o próprio tempo gravado ali na matéria. Já a “não-coisa” — o digital — é um eterno presente, um troço que não tem passado, não tem história e não vai para lugar nenhum. Também preciso dizer que sou leitora de e-books (que economizam espaço na estante e na mala).

    E esse domínio das não-coisas traz problemas bem complicados.

    Já escrevi sobre A Crise da Narrativa, aqui. As narrativas profundas exigem um tempo lento, baseado na continuidade e na memória — características do mundo das coisas. A informação atomiza o tempo — impede a formação de uma “trama” existencial estável —, substituindo-a por um “feed” de acontecimentos isolados.

    Quando as nossas relações passam a ser mediadas por “não-coisas” — telas, avatares, mensagens de texto —, a outra pessoa perde o corpo, perde a presença real. Ela deixa de ser um outro ser humano, com todas as suas complexidades e resistências, e vira só mais um objeto de consumo na tela, um botão para massagear o nosso próprio ego.

    A verdade é que ler não é um processo natural para o cérebro humano. Não nascemos programados para isso; o que fazemos é “reciclar” circuitos da visão e da linguagem para conseguir decifrar os símbolos na página. E é aí que está o ponto central, o suporte para que a leitura aconteça muda completamente a maneira de como a nossa mente processa a informação.

    O cérebro lê o livro físico criando um mapa topográfico da página. Lembramos da posição de uma frase baseados na espessura do bloco de páginas que já lemos à esquerda versus o que falta à direita, e na altura exata em que a palavra estava na folha fixa. Na tela, o scrolling infinito destrói essa espacialidade. A perda de âncoras físicas prejudica a retenção e a memória de longo prazo.

    O papel impõe uma desaceleração mecânica, exige a atenção linear e sustentada, o oposto da atenção fragmentada da economia da distração.

    Podemos concluir que longe de morrer, o livro físico passou por um processo de seleção natural. Dispositivos digitais absorveram os textos descartáveis (manuais, notícias rápidas, ficção de consumo rápido). O que sobrou para o impresso foi o desejo de permanência.

    A escolha do papel (a gramatura, a porosidade do Pólen Soft), a tipografia, a cor da tinta e o corte não são caprichos decorativos, mas parte da experiência de leitura. O design gráfico editorial funciona como uma moldura silenciosa que dita o tom e o ritmo da absorção do texto.

    Em uma sociedade hiperconectada, o cansaço visual e a exaustão psíquica provocados pelo excesso de estímulos (o burnout digital) transformaram o impresso em um artigo de luxo existencial.

    E mais, o ato de fechar um livro após o término de um capítulo traz um senso de conclusão e contorno que o fluxo infinito da internet anula. O livro oferece bordas, limites e começo, meio e fim; O que você lê no papel continua sendo uma experiência só sua: ninguém está rastreando a sua velocidade de leitura, ninguém sabe em qual linha você parou e ninguém vai transformar o seu foco em dinheiro.

    Vida longa ao livro!

    Serviço:

    E a indicação do próprio Han:

    Confira também: A arte de conter multidões

    leitura livro físico livros

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Tati Iaconelli e May Parreira

    Tati Iaconelli e May Parreira

    May Parreira é psicóloga, professora, supervisora e terapeuta há 25 anos. Sua filha, Tati Iaconelli, é formada em propaganda e marketing. Juntas, comandam o Ofício das Palavras, editora e estúdio literário que tem como objetivo lançar novos talentos da língua portuguesa.
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