
[Um riff é uma frase musical curta, marcante e que se repete ao longo de uma música, funcionando como uma de suas bases principais. Ele costuma ser o “gancho” que gruda na cabeça e torna a faixa imediatamente reconhecível]
Junho é mês de festas: fogueira, quentão, bandeirinhas. Geralmente em junho, quatro em quatro anos, temos a Copa do Mundo de futebol. Neste ano, a turma não se animou com a festa no apê. Está um desânimo geral.
Antes da partida contra o Haiti (na sexta-feira) revi a seleção brasileira em 2004, no chamado “Jogo da Paz”, em uma Porto Príncipe paralisada para ver os heróis brasileiros. Um jogo que foi mais diplomático e humanitário do que esportivo. Mesmo com a goleada de seis a zero, a atmosfera era de pura felicidade e reverência popular. Durante aquelas horas, o conflito civil foi interrompido. Há quem tenha chamado o evento de “diplomacia do espetáculo”.
Em fevereiro de 1969, Pelé também havia parado uma guerra na Nigéria (um dos conflitos civis mais sangrentos do continente africano).
Em 2026, nenhuma guerra foi suspensa, algumas pessoas não puderam entrar num dos países-sede, alguns atletas sofreram bullying, mas a população em geral não está nem aí. O espetáculo tem mesmo o poder de anestesiar até os mais resistentes.
Tenho a impressão de que os torcedores estão todos concentrados nas arenas que recebem os jogos. Por aqui, ando na rua sem ouvir as vuvuzelas, sem bandeiras nos carros e varandas.
Como torcer para um time que é composto por jogadores universais? Não existe mais o “espírito de copa” num mundo de rivais iguais. Nenhum país, dos 48 participantes, tem a seleção originária. Dos 26 jogadores de Curaçao, convocados pelo técnico holandês Dick Advocaat para o torneio, apenas um nasceu na ilha caribenha. Dos 48 países participantes, mais da metade são comandados por técnicos estrangeiros (pouco mais de 54% de todos os treinadores).
Os jogadores são exportados ainda jovens para times europeus ou asiáticos. Todos se conhecem, têm a mesma catimba. Como torcer para um Brasil cujo elenco é desconhecido por quem não é aficionado? Os canarinhos são treinados por Ancelotti (italiano); o Matheus Cunha (do Manchester United, da Inglaterra) faz dois gols e a tia do Zap não identifica quem é, porque todos os meninos usam bigodinho e cavanhaque.
Difícil ter identidade no mundo líquido e globalizado. Vamos ter de inventar outro esporte nacional. Ou mudar o foco de nossa atenção.
Eu mudei meu foco.
Li que o The Athletic, seção esportiva de The New York Times, publicou um artigo assinado por @TimSpiers com os melhores hinos das 48 nações participantes da Copa. O Brasil ficou em primeiro lugar, seguido de França e Portugal. Inglaterra ficou em 48º (God save the King, até ele está em baixa!).
Entre meus riffs prediletos estão: (I Can’t Get No) Satisfaction – 1965 – The Rolling Stones [Keith Richards usou um pedal de fuzz para dar o efeito distorcido e criou o DNA da rebeldia dos anos 60].
E Smoke on the Water – 1972 – Deep Purple [tocado com os dedos, não com palheta, tornou-se o primeiro acorde que quase todo estudante de guitarra aprende].
Sobre o hino do Brasil diz Spiers: “Há muitas palavras cantadas muito rapidamente durante a maior parte da composição, sobre não temer a batalha, sobre um colosso destemido e uma pátria amada. Mas o ponto alto é a sua gloriosa introdução orquestral”.
Podemos estar desencantados com a Seleção Brasileira de Futebol, a vibração pode estar fraquinha, mas vamos combinar: o riff é nosso!
Veja também: Sobre objetos de resistência