No final da década de 1980, surgiu um filme que deixou os jovens apaixonados por liberdade e poesia. Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir (O Show de Truman), com Robin Williams e Robert Sean Leonard. A obra consolidou o gênero do “professor inspirador” e inseriu o conceito de Carpe Diem na cultura pop [Disponível no Disney].

Agora, [disponível no Prime], podemos assistir a A Vida de Chuck (2024/2025). Adaptação de Stephen King que, embora dirigida por um mestre do terror (Mike Flanagan), é um drama profundo sobre a existência. Com Tom Hiddleston e Mia Sara (que protagonizou Curtindo a Vida Adoidado – 1986). A presença dela em um filme sobre “celebrar a vida” é uma escolha de elenco que ecoa com a nostalgia dos anos 80.
A Vida de Chuck se tornou um cult instantâneo por tratar a existência da mesma forma com que Keating, o professor, tratava a juventude. Ambas as obras usam Walt Whitman (1819-1892) como bússola. Em Sociedade, Whitman é o “Tio Walt” e o refrão Oh Captain! My Captain! até hoje é repetido: “Ó Capitão! Meu Capitão! Nossa temerária viagem terminou; / O navio sobrepujou todos os obstáculos, o prêmio que buscávamos foi alcançado; / O porto está perto, os sinos eu ouço, o povo todo exulta, / Enquanto seguem com o olhar a quilha firme, a embarcação audaz e severa: / Mas ó coração! coração! coração! / Ó as sangrentas gotas vermelhas, / Onde no convés meu Capitão jaz, / Caído, frio e morto.” Um tributo ao presidente Abraham Lincoln e um lamento à sua morte.
Em Sociedade, Keating diz que “o espetáculo continua e você pode contribuir com um verso”. Em Chuck, a premissa é exatamente esta: a vida de alguém vista não como a de um super-herói ou de um grande líder, mas como um evento cósmico. A vida de uma pessoa comum contém universos inteiros (ou cabe numa casca de noz). Essa visão evoca outra memória: Carl Sagan. Se em Cosmos aprendemos que somos feitos de poeira de estrelas, em Chuck vemos que cada indivíduo é, em si, uma galáxia particular. Não sei você, mas eu via os programas sobre o Cosmos e ficava siderada, literalmente.
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Num Carpe Diem moderno, em três atos, o filme é contado de trás para frente (começando pelo fim da vida e voltando à infância). Isso cria um efeito similar a um poema que Keating cita: “Colham botões de rosa enquanto podem”, usado para confrontar os alunos com a própria finitude.
No ato III (o fim), o mundo está acabando (uma metáfora para a morte individual). No ato II, Chuck dança na rua (o momento de liberdade pura, o seu “grito primal”). E, no ato I, conhecemos as sementes de quem ele será (ou foi).
Se em Sociedade dos Poetas Mortos o chute das bolas ao som de clássicos subverte a disciplina institucional, em Chuck a dança de rua subverte a finitude (o narrador insiste em dizer que seus sapatos são confortáveis — ele não está “apertado” em normas).
A tragédia de Neil (Robert Sean Leonard) ressoa como um lembrete sombrio: cada mente que se apaga é um apocalipse inteiro. É o fim de um mundo que feneceu por falta de espaço para suas próprias contradições.
Whitman, em Canto de Mim Mesmo: “Seja sincero, ninguém está te ouvindo, só vou ficar mais um minuto. / Eu me contradigo? / Pois bem, então me contradigo / (Sou vasto, contenho multidões.) / Concentro-me nos que estão perto, espero na soleira. / O passado e o presente definham — eu os enchi e os esvaziei, / E passo a preencher minha próxima dobra de futuro.”
Não satisfeita com os filmes, baixei no e-book “Com Sangue” O conto é maravilhoso (surpresa para mim, que não gosto de terror) e encantador. A leitura revela um Stephen King em uma frequência humanista que dialoga com o otimismo melancólico de Whitman.
O Chuck de Hiddleston é a personificação do aluno de Keating que, ao atravessar a vida comum, manteve acesa a chama da “extraordinariedade”. Ele não apenas viveu; ele foi o verso que o espetáculo continuou a declamar. A arte e a alegria são as únicas coisas que realmente levamos (ou deixamos).
CARPE DIEM
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