
Em algum inverno passado, comecei a tecer uma manta de lã de quadrados coloridos. A habilidade não era maior do que a que nunca tive para jogar golfe. Assisti a alguns tutoriais no YouTube e, com lãs e agulhas novas, iniciei a tarefa. A primeira ficou meio torta; a segunda, mais caprichada, foi de presente. E veio a pandemia. A amiga de Florianópolis gostou da ideia. Então, fazíamos uma videochamada e ficávamos tricotando, às vezes por mais de uma hora. Foram várias mantas.
A escolha das cores, o humor do dia, a tensão da linha na agulha. Tudo faz parte. Para que o quadradinho fique exato, existe um truque; não é assim, só fazer as carreiras. Demorou para entender a lógica do tricô. Se morasse em um lugar frio, faria muitas coisas; estaria sempre com as pernas aquecidas por algum trabalho colorido.
Nesta semana, começamos na @livrariamantiqueira uma oficina de escrita literária, com foco em contos. Sempre que falo com alguém sobre a escrita, costumo ouvir: “Queria tanto escrever, mas é tão difícil!”. Posso dizer que é tão difícil quanto tricotar.
Já tentou transcrever, com precisão, uma conversa gravada? Faça o exercício. Verá que a mente humana é uma sucessão de pensamentos sobrepostos, que vão e voltam, abrem parênteses e não os fecham, se interrompem pela metade. Ao escrever, você é forçado a linearizar o que é caótico. A escrita é uma ferramenta de administração da própria vida: quando você coloca no papel, o problema deixa de ocupar o espaço da mente e passa a ocupar apenas algumas linhas. Parece conselho de mentor, né? Mas não é. Veja como ajuda ter uma agenda à vista (anoto tudo em três agendas, mas esqueço de conferir — isso não vale, ok?).
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Existem histórias que só existem porque alguém decidiu que não poderiam ser esquecidas. Escrever é um ato de preservação. Seja um trauma coletivo, uma memória de infância ou a história de família, o papel aceita o que o tempo tenta apagar. É transformar o efêmero em algo permanente.
Muitas vezes, só sabemos o que realmente sentimos sobre algo depois que terminamos de escrever. Lembra? O poeta não finge que sente; ele finge a dor que de fato sente. A escrita é esse filtro. Você pega uma emoção bruta, caótica, e precisa “fingi-la” em palavras, rimas e métricas para que o outro possa entendê-la.
Conta-se que, uma vez, Matisse (ou Picasso) mostrou a uma senhora um quadro em que havia pintado uma mulher nua; a visitante retrucou: “Mas uma mulher nua não é assim”. E Matisse respondeu: “Não é uma mulher, minha senhora, é uma pintura”. É a técnica dominando o impulso.
Ninguém nasce sabendo escrever (aliás, nascemos sem saber ler também). É tudo uma questão de disciplina. Não precisa escrever um livro. Escreva uma página. Não precisa escrever uma página. Escreva uma frase. Não precisa escrever uma frase. Escreva uma palavra. Uma palavra por dia!
De novo, não é papo de autoajuda ou autodesenvolvimento. É um convite. O “ponto a ponto” vai revelar uma imagem que nem você conhece. O primeiro ponto é sempre o mais difícil, mas é ele que sustenta toda a costura. E então me vem “O Apólogo”, de Machado de Assis:
“Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E, quando compunha o vestido da bela dama e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me: quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela, e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.”