
O #clubedolivrodaofício iniciou o ano de 2026 de maneira presencial, na @livrariamantiqueira, em São José dos Campos. No primeiro encontro, lemos Doze Dias, com a presença do autor Tiago Feijó.
No segundo encontro, tivemos a professora Andrea de Barros (doutora em Teoria e História Literária) para falar sobre Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. No próximo dia 27 de março, às 16 horas, receberemos a filha de Ruth Guimarães, Junia Botelho, para comentar Água Funda, obra magistral da mãe.
Como nunca li a Ruth? Como ela nunca chegou às prateleiras de todas as livrarias do mundo? Como deixei escapar esse tesouro?
Para quem não sabe (eu não sabia), Ruth nasceu em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, em 1920. Fez Escola Normal em Lorena, foi para Guaratinguetá e São Paulo, sempre estudando e trabalhando. Conheceu Mário de Andrade em 1943, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e formou-se em Letras Clássicas. Casou-se, teve nove filhos e morreu aos 93 anos, em 2014. Vida longa à Ruth!
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Ela publicou vários romances, crônicas, contos, ensaios e traduções. Achei na minha estante O Asno de Ouro, de Apuleio, traduzido por ela. Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz ao ler um livro. Um prazer verdadeiro ao me deparar com o estilo que ela imprime desde o início: claro, elegante, direto.
Ficamos envolvidos na “complexidade da narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico”, diz Antonio Candido no prefácio. Não é pouca coisa!
Água Funda foi lançado no mesmo ano de Sagarana e dez anos antes de Grande Sertão: Veredas. O regionalismo está presente, mas nunca imposto. O narrador anônimo interage conosco como se estivéssemos em uma conversa íntima, café na mão, fubá no bolo. Há mato, varandas, pragas, magia.
A história pode ser contada por minha avó ou minha Bá — e você vai ouvir a sua avó ou a sua Bá. As expressões são conhecidas, a fazenda você já viu em algum lugar. Os cinquenta anos que separam os protagonistas quase não são sentidos. O tempo passa devagar. Dá tempo de acompanhar os personagens e eleger os favoritos.
No final, há ainda uma entrevista em que ela diz que gostava de fugir quando criança. Fugiu, ficou com medo, botou a boca no mundo, mas não se livrou de apanhar. Igual a mim!
“A gente passa nesta vida como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada.”
Recomendo, vivamente, que você dê um Google para saber mais sobre Ruth e venha ao encontro no dia 27 de março.