
No clássico e grotesco romance do escritor americano Cormac McCarthy, ‘Meridiano de Sangue‘, o livro tem como figura central do mal, um juiz culto, pálido, careca e sem pelos no corpo. Holden comete todo tipo de atrocidade, mas dificilmente sofre mais do que um leve confronto ao longo da história e as coisas terminam em “pizza”.
A trama acompanha o Kid, um jovem sem nome que atravessa o Oeste americano e acaba integrado à gangue de John Joel Glanton, um grupo de mercenários que percorre a fronteira entre Estados Unidos e México caçando indígenas e recebendo recompensas por seus escalpos. A gangue existiu de fato, e McCarthy mistura personagens e acontecimentos históricos com ficção para construir uma história sobre violência, guerra e a natureza humana. Holden é um dos integrantes mais assustadores desse grupo.
Holden é temido pelos próprios membros da gangue, que, apesar de também cometerem crimes hediondos, chegam a ficar chocados com algumas das atrocidades praticadas pelo juiz. Ele parece existir acima das consequências, como se as regras que valem para os outros homens simplesmente não se aplicassem a ele.
Nada que Holden comete parece criar consequências em sua vida. Afinal, para ele, aquilo que os homens pensam sobre a guerra, (que é levado como seu Deus) não muda sua natureza:
“Não importa o que os homens pensem da guerra”, disse o juiz. “A guerra persiste.”
A presença do juiz não é apenas física, é psicológica. Holden aparece nos sonhos do Kid e, anos depois, durante uma visita ao jovem na cadeia, afirma ter se decepcionado ao perceber que ele ainda carregava algum grau de piedade em seu coração.
No final do livro (alerta de spoilers), o Kid, agora chamado de “the man”, tem um destino que nunca é explicado diretamente. Depois de um último encontro com Holden, ele desaparece da história. Holden, por outro lado, termina dançando e rindo em um saloon, onde afirma que “nunca dorme, o juiz. Ele está dançando, dançando. Ele diz que nunca vai morrer.”
O epílogo do livro não menciona nenhum personagem. Mostra uma figura anônima abrindo buracos no chão enquanto outros trabalhadores erguem cercas, em uma cena que pode ser lida como a transformação daquele Oeste violento pela chegada de uma nova ordem, a civilização.
Será que nossa civilização chegará? Ou o Juiz seguirá dançando e dançando?