“A Mulher Diferente” (2025), da francesa Lola Doillon (disponível na Netflix), é sobre o diagnóstico tardio de autismo, principalmente em mulheres.
Filha: Fui diagnosticada por uma psicóloga especializada em autismo.
Mãe: Quem consulta uma pessoa especializada em autismo? Não, você não é autista, isso é bobagem! Se é autista, então todos nós somos, é a moda agora? Depois do vegano, flexitariano… autista; ninguém vira autista aos 35 anos, eu teria percebido. O que você está querendo? Me fazer sentir culpa por não ser uma mãe atenciosa?
Filha: Isso não é sobre você. Não estou te criticando por nada. O fato de você não querer que eu seja autista não muda nada.
Mãe: Eu não entendo nada, nunca está certo! Eu desisto! Não pense que foi fácil para mim o tempo todo ouvindo “sua filha não fala” “sua filha é muito tímida” e eu estava sozinha, seu pai não ajudava em nada, ele vivia em seu próprio mundo.
A filha começa a chorar e tapa os ouvidos.
Mãe: Lá vamos nós de novo, você acaba a conversa quando te convém! Querida, estamos conversando, apenas conversando. Me deixa em paz, pensa o que quiser, mas para mim você não é autista (…) Acho melhor eu voltar para casa!
O diálogo faz parte do filme. Achei importante transcrevê-lo não para falar sobre a condição do neurodesenvolvimento, mas sobre não escutar o outro. Ou não conseguir interpretar um texto. A falha de interpretação da mãe não é um caso isolado, mas um sintoma das modernidades.
Claro que me importo com a dinâmica da comunicação atual, tenho netos, sobrinhos-netos e amigos. Claro que alguém vai achar que não estou falando nas netas e amigas… sempre ficará faltando ou sobrando alguma coisa.
Voltando à geração que nasceu conectada, me preocupa a questão de identidade. Quando a filha diz que é autista a mãe responde com o seu próprio histórico de sofrimento (eu estava sozinha, seu pai não ajudava).
É o que vemos quando nas redes sociais alguém compartilha uma conquista (ou uma dor) e os comentários são: Mas e quem não tem casa? Ou: Você fala isso porque não passou pelo que eu passei. A mensagem é tratada como um vácuo, que o ouvinte sente a necessidade de preencher com a própria biografia.
A escuta deixa de ser um ato de acolhimento para se tornar uma competição de narrativas. Já passou por isso, né? Às vezes, sem querer, a gente cai na tentação e pronto, falei!
A filha é explícita, “Não estou te criticando”. Mesmo assim, a mãe se sente atacada. Ela ignora o texto literal para “ler” uma intenção maliciosa que não existe. É a cultura do você disse que gosta de laranjas, então você odeia maçãs?
O ouvinte (ou leitor) não interpreta o que foi dito/escrito, mas o que ele projeta que foi a intenção do autor. Se eu falo, “Ele quebrou a cara no acidente” (houve uma fratura real nos ossos da face) é o sentido literal. Se digo, “Ele quebrou a cara ao tentar me enganar”, é o sentido figurado.
Da mesma maneira que o autista não compreende o sarcasmo, tem gente que não entende figuras de linguagem (metáfora, hipérbole). Existe uma incapacidade crônica de aceitar a literalidade. Se o texto do outro não me valida, eu o interpreto como uma agressão pessoal. Quem não é por nós, é contra nós.
Quando a mãe diz, “Eu desisto, nunca está certo”, ela encerra a possibilidade de diálogo para evitar o desconforto da verdade. Ela prefere ir embora a ter que reavaliar sua percepção.
É o equivalente ao bloqueio ou à saída abrupta de uma conversa quando argumentos lógicos são apresentados. E quanto mais absurda é a tese, mais difícil fica contra-argumentar. Em vez de lidar com a complexidade do discurso/texto do outro, melhor deletar a interação.

A saída física da mãe, “Vou voltar para casa”, é a versão analógica do dar ghosting ou silenciar uma notificação por não conseguir sustentar uma interpretação que exija autocrítica. Está na moda o “deu um perdido” (acho até que já escrevi sobre isso).
A mãe ignora os sinais de crise da filha (tapar os ouvidos) e interpreta como uma estratégia manipuladora, “Você acaba a conversa quando te convém”.
É a leitura de um post ignorando o contexto histórico, social ou emocional de quem escreve. Julga-se a “forma” (o tom de voz, o uso de certas palavras) para deslegitimar o “conteúdo”. A mãe foca no comportamento da filha para não ter que ouvir o que ela diz. Na internet, ataca-se o mensageiro para não ter que processar a mensagem.
E isso tudo porque quando abrimos qualquer rede social, somos invadidos por termos como “escuta atenta, plena, empática, ativa, …”. Eu, hein?