O Soft Power é um termo criado por Joseph Nye, no final da década de 1980, para designar a influência de um país por meio do uso sutil de seus encantos naturais e/ou culturais. Existem países que se especializaram em vender cultura através da culinária e das séries de TV. Turquia e Coreia do Sul são, de longe, os campeões.
Impossível não se sentir transportado para a beleza do Bósforo, comer flores de abóbora recheadas, nadar no frio Mar de Mármara. A Coreia mostra a culinária caprichada e mais elaborada do que aquela que chega até nós. Fora as paisagens de praias e ilhas. Um governo que investiu muito em educação, exige rigor nas escolas e faz cinema vencedor, inclusive, no Oscar 2020, com Parasita. (Telecine, Youtube, Max)
No último final de semana me detive em Uma Nova Mulher (Another Self), 2022, criação de Nuran Evren Şit. Três amigas, entre 30 e 40 anos, viajam para ajudar uma delas a encontrar respostas para o câncer que recidivou. Apesar de o roteiro trazer, em todos os episódios, cenas de sessões de constelações familiares, não acho que deve ser o ponto mais importante.

A proposta de visitar o passado para “curar” o presente é levada com seriedade, não me pareceu uma tentativa de espetacularizar ou mostrar de forma supérflua. Alguém que já tenha experimentado psicodrama, reestruturação do self, psicanálise, talvez ache pontos semelhantes. Apesar de falarem que a “cura” não é certeza, sabemos que existem muitas coisas desconhecidas e talvez sejam assim para sempre.
Abrindo aqui um parêntesis, o insight (o estalo) nunca acontece se a pessoa não está preparada. Mozart só conseguiu compor aos seis anos, porque conhecia profundamente o piano; seu pai o obrigava a estudar escalas, várias vezes por dia. A criatividade para acontecer, precisa de aquecimento.
A pessoa que entra num caminho de busca interior e autoconhecimento, já tem a vantagem de um pré-aquecimento. O insight traz a luz do entendimento. A apreensão do momento traz sentido, a pessoa consegue ligar os pontos, fazer as conexões. (Recomendo, vivamente, que você veja ou reveja o filme O Feitiço do Tempo, 1993)
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O importante do roteiro de Uma Nova Mulher é a amizade que une as mulheres, seus amores, as relações com mães, seus desejos e buscas. O arco dramático de cada personagem é bem delineado. A química entre as atrizes é ótima, difícil achar que elas não sejam amigas assim! Claro, uma comédia romântica, mas dá pra ter o gosto de comer romãs aos grãos.
Uma série linda, cheia de paisagens deslumbrantes, elenco afinadíssimo. E nos faz pensar sobre a vida e a finitude. Como viver bem e aceitar que uma das respostas que a natureza nos oferece (e tentamos evitar) é a consciência de que tudo acaba, tudo morre.
A oliva plantada numa cova, regada, tratada, poderá ser uma oliveira com mais de cem anos, mas não será eterna.
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