Meu pai quando estudante do ginásio, tinha um professor que gritava aos alunos “SaRto é com l, seus bando de burro” (referindo-se à queda d’água). Era engraçado ouvir aquele erre tão caipira. Quanto mais puxado o R, mais influência da Língua Geral, falada no Brasil até o início do Século XX. Papai ingressou na ESALQ (Escola de Agricultura Luiz de Queiroz), mas aí são outras histórias. A origem do nome do rio e cidade vem do tupi: pirá sykaba. Pirá é peixe, chegar é syk. Lugar de chegada é syk-aba. O lugar onde chegam os peixes, ou lugar onde os peixes param.

Gostava de ouvir minha Bá cantar, enquanto estendia as roupas no varal: “O rio de Piracicaba/ Vai jogar água pra fora/ Quando chegar a água/ Dos olhos de alguém que chora!” Ela imitava Inezita Barroso, e eu maravilhada de imaginar alguém chorando tanto.
O tempo passou, dezenas de cantores e duplas sertanejas se encarregaram para que a música sempre estivesse em meus ouvidos.
No dia 7 de julho, ouvimos a triste notícia de três toneladas de peixes mortos no rio. A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) identificou que as mortes foram causadas por despejo irregular de resíduos industriais na usina de açúcar e álcool São José, no Ribeirão Tijuco Preto.
Serão décadas para a volta do ambiente natural. Serão inúmeras espécies que terão de ir embora ou morrerão.

Semana passada, minha coluna, aqui, foi sobre a crise na narração. A falta de uma escuta atenta vai afetar o olhar sobre a nossa história. Estamos deixando de falar, de narrar, de escutar. O excesso de informação e a rapidez como ela se desvanece é um ponto, igualmente, importante na discussão das condições climáticas. Algumas intervenções precisam ser tomadas.
Talvez no futuro, nossas conexões sejam só através de emojis e nossos descendentes só conheçam o sabor de um peixe fritinho na hora, por meio de processos artificiais que imitam o sabor de peixe. E vamos perdendo os sentidos e apagando as contações. Só não podemos perder a capacidade de nos indignar.
🐡🐟🐟😭😖😫👎☠️
O rio de Piracicaba, que tem tantos lugares aprazíveis, que tem museus e festivais de música, de literatura, de cachaça, talvez venha ser só um risquinho azul no mapa sem nenhuma importância. A região, que tem treze sítios arqueológicos pré-coloniais identificados com vestígios de antigas aldeias a céu aberto, oficinas líticas e acampamentos de caça, está ameaçada.
Vale a pena dar um Google e descobrir lugares e fazeres, como o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, considerado um dos mais importantes eventos de humor gráfico, realizado anualmente no Engenho Central.
Ouça a ótima versão da música, com Chitãozinho, Xoxoró e Almir Sater aqui:
https://youtu.be/OB7dVYP0Nbo?si=YIUl7q1qXoG6kpQP
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