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    Ofício das Palavras

    Para quando você for uma pequena escutadora de histórias

    1 de julho de 2024Updated:1 de julho de 2024Nenhum comentário4 Minutos de Leitura
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    Neta queridíssima, você nem bem nasceu e já sei que nós nos sentaremos na cadeira de balanço se estiver fazendo frio, ou debaixo da jabuticabeira se o sol for quente, à sombra fresquinha e se, ainda, existir esta casa. Qualquer que seja o lugar, você pedirá, vovó, me conta a história de quando você era pequena. E falarei de coisas que vivi ou imaginei viver, porque você vai saber um dia, que a nossa biografia é sempre meio inventada, a memória é seletiva e a vida passa a ser uma série de fotos, guardadas sem ordem em alguma gaveta de dentro.

    Contarei para você que nasci numa casa de paredes altas, fogão de lenha e um gigantesco terreiro. Não vou precisar explicar o que é um fogão que se alimenta de madeiras, até porque será um requinte gastronômico nas novas cozinhas partilhadas. Contarei que meu pai me carregou nos ombros para eu ver a seleção do Brasil desfilar na Avenida Indianópolis e recebi um aceno do Amarildo, que ficou no lugar de Pelé, que não jogou por estar contundido. Eu direi que você nasceu no ano de aniversário de 450 anos da imensa cidade; e também houve muita festa, sim, pela cidade, também.

    Quando eu tinha a sua idade, fomos morar numa rua com nome de passarinho, que tinha terra batida no chão e verões marcados por um forte cheiro-de-chuva-boa. Lá fiz muitos amigos, com quem brincava de amarelinha, roda pião, bolas de gude, passa anel e todas essas coisas que, talvez, aprenderá na escola. Mostrarei o estilingue que ganhei de meu tio, quando tinha cinco anos, tentarei atirar algum pedregulho e farei graças para ouvi-la gargalhar, já amo o som de sua risada (não consigo imaginar que você se torne uma adolescente mal-humorada).

    Você perguntará se não tive bonecas e terei de confessar que gostava mais de carrinhos de rolimã e bicicleta. Direi que a cidade era pequena, assim do seu tamanho; as ruas eram tranquilas e podíamos brincar sem preocupações. Lembrarei a vez que meu pai, na volta do trabalho, desceu do ônibus e viu, jogada na esquina da avenida, minha bicicleta vermelha. Nem sombra de filha por perto, guardou a magrela no fundo da garagem. Meia hora mais tarde, eu chego, rosto suado, faces vermelhas, contando que havíamos feito alguma coisa muito interessante. Papai perguntou, será que você não esqueceu alguma coisa por aí? Pensei, pensei. Minha bicicleta! Susto e medo.

    (Créditos: Arquivo pessoal)

    Quando eu era pequena como você, andávamos de bonde, sabe, aquele carro com rodas de ferro que anda sobre trilhos, que mostrarei no livro com fotos de todas essas estranhezas do século passado, que passam muito longe dos drones, que sua turma domina tão bem. Não havia o trânsito que nos deixa enlouquecidos, não havia metrô, corredores expressos, não havia computadores nem celulares. Parece que foi no tempo das cavernas a minha infância, imagine uma vida sem WhatsApp, sem Lives, sem Kindle nem Tumblr. Nem Instagran nem Snapchat, Tiktok, acredita?

    O Parque Ibirapuera, onde fiz tantos treinos para São Silvestre e Maratonas, era um lugar vazio, não havia pessoas correndo, nem com patins, nem skates, muito menos patinetes. Você gostará tanto quanto eu, assim como espero que curta o Campus da Cidade Universitária.

    Nunca direi a você que aquele era um tempo melhor. Você jamais irá me ouvir suspirar “bons tempos aqueles!”. Porque, para mim, bom tempo é esse, em que tenho você por perto, tempo de vê-la crescer com todos os anticorpos adquiridos para a vida na cidade. Se você quiser, quando for para a faculdade, serei velhinha, poderá morar comigo e eu a ajudarei com as pesquisas, já que estou tentando me manter atenta às revoluções digitais.

    A cidade que me viu crescer a receberá também e iremos juntas a teatros, cinemas, ao nosso clube tão querido. Bons tempos esses de seu nascimento, melhores os de então, quando você terá uma netinha para quem contará as histórias que contei quando você foi uma pequena escutadora de histórias.

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    Tati Iaconelli e May Parreira

    Tati Iaconelli e May Parreira

    May Parreira é psicóloga, professora, supervisora e terapeuta há 25 anos. Sua filha, Tati Iaconelli, é formada em propaganda e marketing. Juntas, comandam o Ofício das Palavras, editora e estúdio literário que tem como objetivo lançar novos talentos da língua portuguesa.
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