Durante muitos anos, fiz parte de um grupo de estudos de Bion; Laertes Ferrão nos orientava. Sentávamo-nos à mesa de madeira escura, abríamos o livro, ele lia três ou quatro linhas, acendia um cigarro e começa a divagar. Era nessa hora que aprendíamos, na prática, o que o velho psicanalista nos passava. Estar, ali, com ele era o aprendizado, era o aqui e agora, de que tanto falam os teóricos.
Um dia, falando sobre relacionamentos, ele deu como exemplo o tênis, do qual era apreciador. Quando somos pernas de pau, pegamos a raquete e batemos bola com quem tiver outra raquete. À medida que vamos nos desenvolvendo, os parceiros vão diminuindo, e quando o Rafael Nadal, o George Federer ou o Novak Djokovic chegam ao topo do ranking, ficam disputando entre si durante anos, em todos os torneios. Até que parem de jogar por tantas lesões e dão lugar aos seguintes ranqueados.
Com as relações humanas é igual. A equação da Esfinge, quando crianças, de quatro, aos bandos; adultos viramos bípedes, em casais; velhos, andamos com três pernas (a bengala), sozinhos. A interlocução vai rareando. E saber da falta que faz a conversa entre pares, faz com que eu valorize demais os momentos em que acontece.
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Ontem, almocei com Suzana Montoro, antiga amiga, que não via há anos. Escritora talentosa, vencedora de vários prêmios, também amante de sapatos e de óculos. Falamos sobre livros, sobre autores, e fomos abrindo muitas abas, que não foram fechadas. Para um segundo almoço prometido para algum dia do mês que vem ou do outro.
O livro Os Hungareses, lançado por nós, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, como romance de estreia. Uma edição, linda, cheia de fotos, trabalhado quase artesanalmente. Duas vozes narrativas se alteram para contar a história de uma família que sai da Hungria e vem para um sítio no interior de São Paulo.

“Existe um fato alegórico que representa o romance, a mudança de nacionalidade da aldeia. O não falar que este momento provoca permeia todo o relato. Os personagens narram suas relações, porém a interação deles é pobre como a linguagem que perderam. O tom descritivo é a perfeita adequação entre forma e conteúdo. A autora traz a saga de um povo sofrido, sem recursos, em meio a guerras, mortes, separações, doenças, mas que mantém sempre uma alegria e uma maneira de encarar a vida, que mescla força para lutar e ao mesmo tempo a serena aceitação do inevitável.” (Texto retirado da www.estantevirtual.com.br)
Perder a interlocução é, para mim, o que mais dá medo. Quando não existe o outro, não existe o eu. E nós precisamos da linguagem, para termos identidade. Aqui também abri abas, que não vou fechar. Ficam sugestões para outros textos ou outras conversas.
O caminho é árduo e vai se tornando solitário. Ainda bem que os amigos e os livros nos fazem companhia.
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