
Os eventos gastronômicos se espalham pelas cidades. É interessante observar essa nova tendência da culinária contemporânea: uma mistura de gastronomia, cultura, lazer, conhecimento e, principalmente, histórias.
Em um deles, caminhamos entre lindas cerejeiras, em um lugar que, por si só, já transmite paz e tranquilidade. No meio do passeio, surge o convite para uma aula sobre queijos. Mais adiante, outra sobre azeites. Depois, mais uma descoberta, mais uma conversa. Belisca daqui, prova dali, um gole deste, outro daquele e, quando percebemos, estamos carregando uma sacola cheia de produtos e ainda nem chegamos ao palco onde grupos apresentam um pouco da cultura japonesa.
Depois vem o salão principal. Inúmeras barracas produzem freneticamente uma quantidade enorme de iguarias, quase como em um fast-food. Curiosamente, porém, nós nos sentamos à mesa para viver um slow food. Talvez esteja aí parte da magia desses eventos.
Há muitas opções para comer, beber, comprar e conhecer, mas nenhuma necessidade de correr. Sentamos à mesa. Um levanta e vai passear. As crianças brincam. Outros continuam comendo e conversando. Alguém volta trazendo alguma novidade para experimentar. O tempo parece correr de outra maneira.
Mudam o cenário, a origem da comida e os produtos sobre as bancadas, mas essa sensação se repete. Encontrei algo parecido nos eventos de comida italiana, de comida alemã, de vinhos, de flores e morangos e, mais recentemente, no encontro que reuniu porco, batata e doces em fatias.
Neste último, foi a chuva que determinou o ritmo. Minha passagem acabou sendo muito mais rápida do que gostaria. Ainda assim, entre uma barraca e outra e procurando escapar da água, foi possível reconhecer o mesmo movimento: pessoas reunidas em torno da comida, descobrindo produtos e aproveitando aquele tempo sem a pressa habitual.
Seja debaixo das cerejeiras, entre flores e morangos, diante de uma taça de vinho ou protegidos da chuva, esses encontros parecem compartilhar o mesmo encanto. São momentos cada vez mais raros na correria dos nossos dias.
Há algo da praça de alimentação dos shoppings, é verdade, mas sem a obrigação de comer depressa para voltar ao trabalho, à escola ou à próxima tarefa. Vamos com a família, encontramos amigos, conhecemos pessoas, provamos alguma coisa, compramos outra e permanecemos por ali simplesmente porque é agradável ficar.
Provavelmente essa é uma das razões pelas quais esses eventos estão sempre cheios e conquistam um público crescente.
É bom para quem frequenta, para quem produz e para quem organiza. E os efeitos vão além dos limites do próprio evento. Alcançam a rede hoteleira, o turismo, a gastronomia e o comércio da cidade. Forma-se uma cadeia que movimenta pessoas, produtos, conhecimento e economia.
Mas, de evento em evento, comecei a perceber que havia algo ainda mais interessante acontecendo. Aos poucos, minha atenção foi saindo das barracas e dos pratos para se voltar a quem estava atrás deles. Passei a ir atrás dos produtos e, principalmente, dos produtores. Fui atrás de uma boa conversa. E como conversei.
Família dos vinhos, bailarina dos azeites
Foi então que cada evento começou a revelar algo diferente. Descobri tantas histórias de vida, trabalho, esforço e superação que seria injusto escolher apenas uma delas como protagonista.
Em uma dessas conversas, conheci a história de uma família cujos avós trouxeram de sua terra natal a tradição de produzir vinhos de mesa. Nas mãos dos netos, aquela herança atravessou gerações, incorporou conhecimento e tecnologia e chegou à produção de vinhos de alta qualidade, premiados em concursos no Brasil e no exterior.
Em outra bancada, ouvi a história da bailarina que, preocupada em manter o peso, vivia às voltas com suas saladas. Foi a avó quem lhe ensinou a preparar azeites saborizados. O que começou acompanhando uma necessidade cotidiana acabou mudando o rumo de sua vida. Ela deixou os palcos e passou a criar outras obras, agora a partir dos frutos da oliveira.
As conversas continuaram. Encontrei quem produz chocolate acompanhando o processo desde sua origem. Quem faz a curadoria e leva ao público produtos de pequenos produtores da Mantiqueira. Quem transforma leite em queijos carregados de identidade.
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Vinho libanês
E, entre tantas histórias, uma taça me levou muito mais longe, até o Líbano. Mesmo produzidos nas montanhas ao norte, enquanto a guerra acontecia ao sul, aqueles vinhos também carregaram marcas daquele período. Os ventos levaram fumaça, pólvora e enxofre por grandes distâncias, e parte da produção chegou a ser perdida. Ao abrir uma dessas garrafas, era possível perceber aromas que remetiam à pólvora e ao enxofre. De alguma maneira, aquela taça também guardava um registro de um momento vivido pelo país.
De volta aos nossos produtores, as histórias continuavam. Há a doçura do mel e das geleias. O cuidado com os idosos transformado em trabalho e afeto. As dificuldades impostas pela terra até que dela se consiga extrair um produto de excelência. As viagens feitas para buscar conhecimento. Os cursos, os erros, as experiências e as tentativas que não aparecem quando encontramos o produto pronto sobre uma bancada.
Até mesmo aquela passagem rápida pelo evento de porco, batata e doces em fatias, interrompida pela chuva, acabou reforçando algo que venho percebendo a cada novo encontro: por trás de uma preparação aparentemente simples existe quase sempre uma história que não cabe no prato. Talvez seja justamente isso que eu esteja aprendendo.

Conversas que preenchem a alma
Temos muito mais a experimentar em um evento gastronômico do que aquilo que cabe em uma taça, em um prato ou numa pequena porção oferecida para degustação. Um vinho, um queijo, um azeite, um chocolate ou um doce podem agradar, surpreender ou simplesmente não conquistar o nosso paladar. Gosto é pessoal.
Mas, quando paramos para conversar com quem está do outro lado da bancada, descobrimos algo que vai muito além da nossa aprovação ou não daquele produto, algo que nenhuma ficha técnica consegue registrar.
Descobrimos pessoas. Histórias vivas de trabalho, escolhas, renúncias, viagens, dificuldades, encontros, erros e recomeços. Histórias que nos lembram o valor de cada gota de suor e, algumas vezes, das lágrimas derramadas pelo caminho até que aquele produto chegasse às nossas mãos.
Depois disso, alguma coisa muda. A taça já não contém apenas vinho. O vidro não guarda apenas azeite. O queijo deixa de ser somente queijo. O chocolate, o mel, a geleia, a batata, o doce ou qualquer outra produção passam a carregar também a história de quem os fez.
E talvez seja esse o ingrediente que não aparece no rótulo. Quando conhecemos a história de quem produz, cada produto ganha outro sabor. E, certamente, muito mais valor.