Existe algo mais criativo do que a mente dos filhos? Primeiro veio o desafio de construir uma praia para um evento de frutos do mar.
Confesso que não foi simples. Mas o próprio idealizador ajudou na execução. Fez tartarugas, siris e peixes de chocolate que foram espalhados pelo prato. Biscoitos amanteigados viraram terra. Brigadeiro de leite ninho representava a areia clara.
Um segundo brigadeiro, desta vez de limão, ganhou um tom mais escuro para lembrar a faixa úmida próxima ao mar. A água era feita com gelatina e corante azul, onde os bichinhos de chocolate habitavam tranquilamente aquele ecossistema improvável.
Não preciso descrever a reação quando o prato-surpresa chegou à mesa, fora do cardápio e sem qualquer explicação prévia. Desafio vencido. Mas convenhamos, era difícil dar errado. Chocolate, brigadeiro e bolacha amanteigada costumam formar um time tão entrosado quanto os favoritos que entram em campo sonhando com o título. Ou pelo menos mais previsível do que algumas seleções desta Copa, que já viram Cabo Verde arrancar empates de Espanha e Uruguai.

Mas ele não cansa de me desafiar. Dias depois surgiu uma nova missão. Tinha que criar algo especial para a Copa do Mundo. Um prato para ser servido no dia do jogo. Algo que representasse o Brasil. Decepcioná-lo? Nem pensar. Perder o desafio? Muito menos. Afinal, cozinheiros raramente são conhecidos por tomar as decisões mais sensatas.
As ideias começaram a aparecer. Pensei em fazer um jogador da Seleção. Pensei em reproduzir uma bola de futebol. Cogitei até algum tipo de escultura em chocolate.
Felizmente, antes que a situação fugisse completamente do controle, percebi que a resposta estava bem diante dos meus olhos. Nas janelas. Nas sacadas. Nos carros. Nas ruas. Nas infinitas camisas amarelas que reaparecem a cada quatro anos como se tivessem passado todo esse tempo escondidas em alguma dimensão paralela do guarda-roupa. A bandeira.
Só que desenhar uma bandeira já é trabalho para um artista. Construir uma bandeira que possa ser comida é outro campeonato. O verde foi o primeiro a surgir. Representando nossas matas, ocupou a base do prato na forma de um molho elaborado com couve-manteiga, espinafre e salsinha. As folhas passaram rapidamente por branqueamento para preservar a clorofila e manter uma cor vibrante, reduzindo também notas vegetais mais agressivas.
Outra boa leitura nesse clima de Copa: Canjiquinha: a amarelinha da nossa cozinha
O amarelo veio naturalmente. Manga e maracujá formaram um molho dourado, intenso na cor e no sabor. Daqueles que parecem ter sido criados especificamente para acompanhar um bom peixe. E peixe havia. Um belo filé de robalo grelhado, com a pele crocante, temperado apenas com sal e uma leve pitada de pimenta-do-reino branca. Sim, pimenta branca. Porque eu gosto.
O branco da bandeira também não apresentou grandes dificuldades. Leite de coco e creme de leite resolveram a questão com elegância. Eu até pretendia usar apenas coco seco para criar uma textura mais crocante, mas nem sempre encontramos todos os ingredientes no momento em que a inspiração aparece. E desafios culinários raramente aguardam a próxima entrega do fornecedor.
Restava o azul. E aí começou o verdadeiro jogo eliminatório. Poucas cores dão tanto trabalho na gastronomia quanto o azul. Depois de algumas experiências que provavelmente deixariam qualquer professor de química preocupado, surgiu a solução: extrair os pigmentos do repolho roxo e convencê-los, por meio de ajustes de acidez, a vestir a camisa da seleção brasileira.
O bicarbonato foi o técnico dessa virada. Mas ainda existia um problema. Onde colocar o azul?
Precisava de algo branco, delicado e circular. As vieiras resolveram a questão. Parentes elegantes das ostras e dos mexilhões, possuem carne branca, textura macia e um sabor levemente adocicado. Bastaram sal, pimenta branca — novamente porque eu gosto — e alguns instantes sobre manteiga clarificada.
Prato montado. Uma bandeira brasileira reinterpretada à moda da cozinha contemporânea. Moderna, descontraída e comestível. Mas ainda faltava o último lance da partida. Preparei pequenas pipetas com uma mistura de água, limão-cravo e uma pitada de açúcar. Cada pessoa recebia a sua com uma orientação era simples: despejar lentamente o líquido sobre as vieiras.
O resultado foi duplamente interessante. Primeiro porque o limão combina maravilhosamente bem tanto com as vieiras quanto com o robalo. Segundo porque a química resolvia entrar em campo mais uma vez. O pigmento do repolho, transformado em azul pelo bicarbonato, voltava gradualmente para tons violáceos e rosados conforme recebia a acidez do limão.
A bandeira mudava de cor diante dos olhos dos convidados. Um prato virava brincadeira. Uma brincadeira virava experiência. E experiência é algo que a gastronomia faz muito melhor do que simplesmente alimentar.

Hoje o Brasil entra em campo buscando confirmar a liderança do grupo C contra a Escócia. Não sei se teremos espetáculo, sofrimento ou aqueles noventa minutos que fazem o torcedor prometer que nunca mais vai assistir futebol.
Mas uma coisa eu aprendi com esse prato: torcer pelo Brasil é também sentar-se à mesa, compartilhar histórias, aceitar desafios aparentemente impossíveis e descobrir que, às vezes, um simples repolho pode se transformar na parte mais divertida da bandeira nacional.
E se esta Copa já nos mostrou algo, é que a beleza do futebol mora justamente no inesperado. Cabo Verde arrancou empates de Espanha e Uruguai e virou uma das sensações do torneio. Na cozinha, como no futebol, nem sempre vence a ideia mais óbvia.
Hoje, enquanto a Seleção busca confirmar o primeiro lugar da chave, eu fico satisfeito em saber que, pelo menos neste desafio, conseguimos colocar o Brasil inteiro dentro de um prato.
Para quem gosta das boas histórias: Um brinde à vida e aos sommeliers