
Em época de Copa do Mundo, o brasileiro muda de comportamento.
Aquela bandeira do Brasil, cuidadosamente dobrada e esquecida no fundo da gaveta durante quatro anos, reaparece milagrosamente. Em poucos dias está pendurada nas janelas, nas sacadas, nos carros e em qualquer lugar onde possa lembrar que, pelo menos durante algumas semanas, somos todos técnicos da Seleção.
E justamente agora, quando o frio também resolveu entrar em campo, fiquei pensando que existe um prato que parece ter sido escalado para esse momento.
A canjiquinha
Amarela como a camisa da nossa Seleção, servida fumegante para aquecer o corpo, basta receber algumas ervilhas frescas, um punhado de cheiro-verde ou uma couve bem picada para ganhar também o verde da nossa bandeira. Colocada em um prato azul, veste naturalmente as cores do Brasil e ainda cumpre uma missão importante: aquecer o corpo enquanto a esperança de mais um título aquece o coração.
Mas sua história começou muito antes de existirem Copas do Mundo, estádios lotados ou narradores transformando um simples gol em poesia.
Muito antes da chegada dos portugueses, o milho já era um dos principais alimentos dos povos indígenas que habitavam o território brasileiro. Dele surgiam mingaus, papas e farinhas que sustentavam comunidades inteiras. Com a colonização portuguesa e a influência africana, esse ingrediente ganhou novas técnicas de preparo e passou a ocupar um lugar definitivo na formação da identidade gastronômica brasileira.
Da moagem do milho surgia um produto curioso: pequenos fragmentos do grão, maiores que o fubá e menores que o milho inteiro. Aquilo que poderia ser considerado apenas um subproduto passou a ser lentamente cozido em grandes panelas, transformando-se em um alimento barato, nutritivo e extremamente saboroso.
Assim nasceu a canjiquinha
Ou melhor, nasceu um ingrediente capaz de originar dezenas de receitas e de receber diferentes nomes conforme a região do Brasil.
Em Minas Gerais, ela é simplesmente canjiquinha.
No Paraná e em boa parte do Sul, é conhecida como quirera.
No Nordeste, atende pelo nome de xerém.
Já em algumas regiões do Espírito Santo, aparece também com um dos apelidos mais curiosos da culinária brasileira: Péla-Égua.
O milho é o mesmo. Quem muda é o sotaque.
Cada região deu ao mesmo milho sua própria identidade, como se o Brasil inteiro falasse a mesma língua com deliciosos sotaques diferentes.
Em Minas Gerais, ele chega à mesa acompanhado de costelinha de porco, linguiça e couve refogada. No Paraná, faz uma parceria histórica com o suã, aquelas partes ósseas do porco que entregam muito mais sabor do que sua aparência faz imaginar. No Nordeste, o xerém aparece ao lado da galinha, da carne de sol ou simplesmente enriquecido com manteiga e queijo.
Hoje, a canjiquinha também conquistou os grandes palcos da gastronomia. O que durante séculos foi uma comida simples das cozinhas rurais agora aparece em restaurantes sofisticados acompanhando pato confitado, cordeiro, cogumelos, frutos do mar e azeites trufados. Mudou a louça, ganhou apresentações elegantes e ingredientes nobres, mas continua sendo a mesma receita de origem humilde que conquistou seu espaço pelo sabor e pela capacidade de reunir pessoas em volta da mesa.
E como toda estrela da culinária popular, também coleciona boas histórias.
O curioso apelido Péla-Égua, tradicional no Espírito Santo, possui diversas explicações populares. A mais divertida conta que antigos tropeiros preparavam enormes panelas de milho quebrado com carnes e gordura para enfrentar as longas viagens. Bem alimentados, montavam novamente em suas éguas e seguiam caminho produzindo uma trilha sonora que divertia os companheiros de jornada. Entre risadas e brincadeiras, o prato teria recebido esse nome irreverente.
Se essa história é verdadeira, ninguém sabe ao certo.
Mas a gastronomia popular também vive dessas boas histórias. Toda família tem uma receita “secreta” que, curiosamente, todo mundo conhece. Todo mineiro garante que a verdadeira canjiquinha é a da sua região, todo paranaense diz que o nome certo é quirera, todo nordestino defende o seu xerém e, no Espírito Santo, ainda aparece alguém para explicar que aquilo ali, na verdade, é um legítimo Péla-Égua. No fim das contas, ninguém chega a um acordo — e talvez seja justamente por isso que a culinária brasileira seja tão rica.
Talvez seja exatamente por isso que a canjiquinha combine tanto com uma Copa do Mundo.
Ela nasceu para reunir pessoas em volta da mesa. Alimenta muita gente com poucos ingredientes, aquece as mãos, conforta o estômago e prolonga a conversa. É um daqueles pratos que obrigam a panela a voltar para o centro da mesa porque sempre existe alguém pedindo “só mais uma colher”.
Neste inverno, deixe a bandeira na janela, vista a camisa amarela e reúna a família. Sirva uma canjiquinha bem quente, acrescente um toque de verde com ervilhas ou cheiro-verde e, se possível, apresente-a em um belo prato azul.
Talvez nenhum outro prato consiga vestir tão naturalmente as cores do Brasil.
Porque algumas paixões conseguem unir um país durante noventa minutos.
A canjiquinha faz isso há séculos, aquecendo o corpo, a mesa e o coração dos brasileiros.
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