
Há receitas que alimentam o corpo. Outras alimentam a memória.
As primeiras desaparecem poucos minutos depois de servidas. As segundas atravessam gerações.
Na gastronomia, costumamos homenagear os grandes cozinheiros. Celebramos chefs, restaurantes, produtores rurais, sommeliers e confeiteiros. Mas existe uma profissão igualmente importante e, muitas vezes, silenciosa: a daqueles que registram a história da nossa mesa.
Uma receita sem alguém para contá-la corre o risco de desaparecer. Um modo de fazer, um ingrediente regional, uma tradição familiar ou a lembrança de um antigo restaurante podem desaparecer junto com quem os conheceu.
Foi justamente contra esse esquecimento que trabalhou José Guilherme Rodrigues Ferreira.
Jornalista por formação, escritor por vocação, poeta e pesquisador incansável, fez da gastronomia muito mais do que um conjunto de receitas. Em suas obras mostrou que cada prato carrega pessoas, imigrações, festas populares, mercados, agricultores, cozinheiros e famílias inteiras. Ensinou que uma cozinha não se explica apenas pelo sabor, mas também pela história de quem a construiu.
Sua produção intelectual percorreu diferentes caminhos. Em Vinhos no Mar Azul – Viagens Enogastronômicas (2009), premiado internacionalmente pelo Gourmand World Cookbook Awards, conduziu o leitor por viagens em que o vinho dialoga com a história, a arte e a cultura. Em O Almofariz de Deméter – Breve Geografia de Vinhos, Afeições, Alimentos e Apetites (2020), reuniu crônicas nas quais a comida se mistura às lembranças, às viagens e aos afetos. Já em São José dos Campos – Várias Rotas, Um Destino (2024), voltou seu olhar para a cidade que escolheu para viver, registrando sua identidade, sua cultura e suas transformações. Cada livro reafirmava uma convicção que ele carregava: a gastronomia é uma das formas mais belas de preservar a memória de um povo.
Foi escrevendo sobre essa memória que José Guilherme se tornou referência. Mas tive o privilégio de conhecer também o homem por trás das páginas.
Há um ano e meio encontrei José Guilherme pela primeira vez. Foi o jornalista Gabriel Duarte quem nos apresentou.
— Este é José Guilherme, diretor de Jornalismo da SPRioMais.
Falava baixo. Com serenidade. Não precisava elevar a voz para conduzir uma conversa; bastavam poucas palavras para despertar a curiosidade de quem estava à sua frente. Aos poucos, aquela reunião foi se transformando em uma agradável conversa sobre livros, gastronomia, jornalismo e cultura. Ao final, veio o convite para que eu escrevesse esta coluna.
Lembro-me perfeitamente de sua expressão quando ouviu o nome do projeto. A testa levemente franzida, um olhar curioso e, logo depois, um discreto sorriso.
— Cozinha sem Chef? Um nome curioso… e desafiador.
Naquele instante nascia uma atividade que jamais havia imaginado fazer parte da minha rotina.
Durante esse período, cada encontro foi uma verdadeira aula. José Guilherme não se limitava a sugerir ajustes em um texto ou discutir um título. Ensinava a importância da pesquisa, do rigor histórico, da construção da narrativa e, principalmente, do respeito ao leitor. Entre uma orientação e outra, surgiam histórias sobre suas viagens, seus livros, pintura, literatura, jornalismo, vinhos e gastronomia. Era impossível sair de uma conversa com ele sem aprender alguma coisa.
Sentar-me à mesa com uma garrafa de vinho em sua companhia era um privilégio. Aconteceu poucas vezes, é verdade. O consultório médico me mantinha distante da janela da Helbor, de onde ele observava a cidade. Parecia enxergar histórias em cada movimento das ruas, em cada ponto de luz e até nos cantos esquecidos que a maioria de nós atravessa sem perceber. Depois, transformava tudo isso em palavras com uma inteligência e uma elegância que somente os grandes cronistas possuem.
No Festival Mais Gastronomia, depois de algumas fotografias e de uma conversa rápida, apresentou-me, com a generosidade que lhe era característica, a diversas pessoas que passavam pelo estande da SPRioMais. Em seguida, sentamo-nos à mesa. Havia uma garrafa de vinho que, dessa vez, ele preferiu não compartilhar. Enquanto conversávamos, orientava-me sobre como conduzir minha participação no evento do dia seguinte.
Foi durante aquela conversa que comecei a sentir as primeiras pontadas no peito.
Poucas horas depois, elas me levariam para uma UTI.
Sem que qualquer um de nós pudesse imaginar, aquele seria nosso último encontro.
Hoje percebo que não perdi apenas o diretor de Jornalismo da SPRioMais, nem somente um dos maiores pesquisadores da gastronomia brasileira. Perdi um mestre generoso, um companheiro de mesa e alguém que acreditou em mim quando “Cozinha sem Chef” ainda era apenas um nome curioso e desafiador.
Os restaurantes fecham. Os cardápios mudam. As receitas ganham novas versões. Os cozinheiros se aposentam.
Os livros permanecem.
E, enquanto alguém abrir uma de suas obras para descobrir a história de um ingrediente, de uma receita, de um vinho ou de uma mesa brasileira, José Guilherme continuará fazendo aquilo que sempre fez com extraordinário talento: preservar nossa memória.
Muito obrigado, Zé Gui.
Sua cadeira à mesa ficará vazia.
Mas seu lugar no jornalismo brasileiro — e na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com você — jamais ficará.