
A vida é um sopro, chega e vai embora sem avisar…
Esta semana, perdi (perdemos) José Guilherme Rodrigues Ferreira. Cheio de ideias, desafios e trabalhos para fazer, Zé Guilherme era muita coisa em uma pessoa só: jornalista, escritor, poeta, pintor, exímio conhecedor de culinária e de vinhos, intelectual brilhante, professor de gerações de jovens entusiasmados, irmão, tio, parente. Mas, para mim e, sorte dele, para muita gente, Zé era uma coisa só: amigo. Amigo daqueles que o acaso da vida nos traz e de quem sentimos uma falta danada quando se vão, deixando um buraco difícil de preencher.
Nem sempre foi assim…
Explico: Zé e eu tínhamos a mesma idade, 67 anos, a mesma profissão, jornalistas, mas trilhamos carreiras distantes, cada um do seu lado; eu na “Folha”, na “Gazeta Mercantil” e no “Vale Paraibano”; ele em algumas das principais redações do Brasil, do “Estadão” à “Folha”, do antigo “JT” à Rede Globo, “Jornal da USP” e “Diário do Comércio”. Como muita gente da nossa geração, fez tudo -foi repórter, editor, chefe de reportagem, produtor, diagramador e editor-chefe. Mas, eu cá e ele lá, Zé foi para mim, durante muito tempo, uma referência distante, tão somente o “marido da Ana Paula”, amiga querida com quem trabalhei na “Folha”.
Isso começou a mudar tempos atrás, quando ele assumiu o Jornalismo da SPRIO+.
Fomos apresentados oficialmente pelo Maurício Guisard, dono do portal e amigo de ambos. Iniciamos uma parceria tímida, dividindo microfone em entrevistas e podcasts, reuniões de pauta e troca de ideias; ele como diretor de Jornalismo do portal, eu como colaborador. Essa fase formal durou pouco. Aos poucos, começamos a dividir de cafés a almoços, de conversas diárias a troca de ideias e pontos de vista sobre os assuntos mais diversos, de política a futebol (Zé torcia para o Santos), de literatura a projetos comuns, de jornalismo (não podia faltar) a pessoas em comum, que a profissão e a cidade tornaram próximas a ambos. Enfim, da vida. Mensagens telegráficas, trocadas tarde da noite, viraram rotina.
De colegas, nos tornamos amigos…
Zé Guilherme era generoso com as pessoas, educado e inteligente como poucos, culto, dono de uma ética ferrenha, voz mansa, um excelente jornalista e tudo aquilo que elenquei no começo deste texto. Mas, para mim, antes de tudo e além de tudo, Zé era um amigo, daqueles que a gente carrega no peito, quer dividir coisas, sente falta.
Me despeço do Zé citando, do meu modo, um poema do livro “Loci”, lançado por ele em 2025, em uma noite fria, no Parque Vicentina Aranha. O poema se chama “Despedida” e diz assim: “dispendem as meias-horas perfuradas nas passagens; em um só minuto, silvo, folhas e trens deixam vazias todas as estações.” O trem partiu, todas as estações estão vazias e as folhas, varridas pelo vento, correm pela relva, lembrando a beleza sem fronteiras da poesia de Walt Whitman. O que acalma o coração é saber que a vida, teimosa, começa e recomeça todos os dias.
Segue o baile…