Senta que lá vem história…
Em 2012, o jornal “O Vale” lançou a campanha “O Vale pela Paz”, com o objetivo abrir debate sobre a violência epidêmica que atingia o Vale do Paraíba e do Litoral Norte à época.
O foco do jornal, do qual eu era editor-chefe à época, era de sensibilizar as autoridades e a sociedade a debater e encontrar alternativas para conter a violência, isso após anos e anos da região estar na liderança do Mapa da Violência do Estado. Coordenada pela editora de Polícia de “O Vale” , a excelente Maria D’Arc da Silva, a campanha durou seis meses, com reportagens, entrevistas e levantamentos diários sobre o tema. “O Vale pela Paz” sensibilizou muita gente, de instituições de ensino, como a Universidade de Taubaté, que aderiu de imediato ao movimento, a entidades de classe, prefeitos, vereadores, deputados, entre outros, todos convidados a subscrever uma Carta Aberta, cobrando ações concreta para conter a violência urbana na Região Metropolitana do Vale do Paraíba.
Pois bem, 14 anos depois da campanha, é triste ver que avançamos pouco, como região, nessa batalha.
Exagero? Ora, os números estão aí para provar.
Levantamento divulgado esta semana pelo “O Vale” mostra que a RMVale continua a liderar o ranking da violência no Estado, com 8 das 15 cidades com a mais alta taxa de vítimas de homicídio por 100 mil habitantes do estado, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo. O levantamento compara as 100 maiores cidades de São Paulo com base nos dados oficiais, que levam em conta o número de pessoas mortas em homicídios nos últimos 12 meses (junho de 2025 a maio de 2026). A cidade líder do Mapa da Violência é Lorena, seguida por mais quatro municípios da região: Ubatuba, Cruzeiro, Caraguatatuba e Pindamonhangaba. São Sebastião é a 7a. do Mapa, Caçapava é a 11a. e Taubaté, a 14a.
Lamentável…
Estamos falando de bem mais de uma década com o Vale do Paraíba, uma das regiões mais desenvolvidas do país, no topo do Mapa da Violência do Estado. Isso apesar de todo esforço diário das forças de segurança que atuam na região. Isso apesar da críticas e reclamações frente a esse quadro. Isso apesar da gente saber que a RMVale esteve presente no eixo central do poder do Estado durante todo esse tempo –seja com Geraldo Alckmin (PSDB à época, hoje PSB), como governador em mais de um mandato, seja com Felício Ramuth (MDB), atual vice-governador.
É triste, mas o Mapa da Violência parece ter cristalizado a RMVale em uma situação crítica.
Ações & Reações
Em todo esse tempo, qual a reação do Estado frente a isso?
Em primeiro lugar, o Estado sempre tentou –e ainda tenta– negar a realidade, minimizando números divulgados por ele próprio. Quando isso não funciona, vem a velha cantilena, sem que isso resolva coisa alguma: a culpa é da guerra entre facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas; ou da geografia, que torna a RMVale limite de Estado do Rio de Janeiro, onde a violência ultrapassa limites da lógica; ou da população flutuante, que “incha” as cidades do Litoral Norte durante a temporada; ou, essa a desculpa mais deslavada, das vítimas são, em sua maioria, criminosos, o que deixaria a violência à margem de boa parte da sociedade. Não deixa …
Se não colar nenhuma dessas, volta à baila o projeto da “Muralha Paulista”, que, mais de 10 anos depois dos primeiros estudos, continua patinando. Até quando? É muito blá-blá-blá e pouco resultado.
Eleições
Este ano tem eleições gerais e a Segurança Pública é, mais uma vez, um dos temas que vai, com certeza, dominar o debate político. Com tantos candidatos a deputado na região, algum deles tem alguma proposta realista para tirar as cidades da RMVale do topo do Mapa da Violência? Se tiver, seria bom conhecê-la. E os candidatos a governador, que vão dar as caras pela região, com certeza, até outubro, atrás de voto. Fora generalidades, algum deles vai apresentar algo concreto, factível, que faça diferença na vida do cidadão? Manda para mim, terei prazer em divulgar.
Depois desse desabafo, segue o baile…
PS: Este é o terceiro artigo sobre Segurança Pública de uma série de quatro textos. No próximo artigo vou analisar o que torna uma cidade mais ou menos segura. E isso vai muito além de polícia na rua, embora, claro, polícia na rua seja importantíssimo. Até lá…
Veja também: S. José na contramão do Mapa da Violência