
A morte de José Guilherme Rodrigues Ferreira chega como uma dessas notícias que o jornalismo sabe publicar, mas não consegue explicar. O nome, a idade, a trajetória e a data cabem numa página; a falta que uma pessoa deixa, não. Nenhum título alcança o silêncio de uma redação quando se perde alguém que conhecia o peso exato das palavras, a dignidade de uma informação bem escrita e a beleza secreta de contar o mundo sem diminuí-lo.
Nascido em Botucatu, em 1959, José Guilherme pertence a estirpe dos jornalistas completos, formados não somente pela universidade, mas pelo trabalho diário, pela leitura, pela curiosidade e pela convivência com a notícia. Graduado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, percorreu redações decisivas da imprensa brasileira. Passou por O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Jornal da Tarde, Agência Estado, Rede Globo, Jornal da USP e Diário do Comércio. Foi repórter, redator, editor, produtor, diagramador, chefe de reportagem e condutor de equipes. Conhecia o jornal inteiro, da primeira pergunta ao último ponto colocado antes do fechamento.
Até os últimos dias, era diretor de Jornalismo do portal SPRIOMAIS, função que exercia com a autoridade tranquila de quem nunca precisou erguer a voz para ser ouvido. No suplemento SPRIOMAIS Acontece, tornara-se seu colunista mais reluzente com “Da Janela do Helbor”, espaço no qual observava a cidade, os costumes, os personagens e a passagem do tempo com inteligência, ironia, ternura e uma elegância que já não se encontra com facilidade. Daquela janela, José Guilherme não via somente ruas e edifícios. Observava as vidas que habitavam a cidade. Percebia o detalhe esquecido, a mudança quase invisível, o gesto aparentemente pequeno que, em suas mãos, se convertia em retrato de uma época.

Mas seria injusto encerrá-lo dentro do jornalismo. José Guilherme era também escritor, pintor, poeta visual, pesquisador e homem de extrema cultura. Publicou poemas experimentais, criou livros-objeto, escreveu sobre vinhos, gastronomia, viagens, aviação, memória e cidades. Seu olhar não estabelecia fronteiras entre o cotidiano e a arte. Uma mesa podia conter uma história de família; uma garrafa guardava paisagens, afetos e travessias; uma cidade era sempre muito maior que seu mapa urbano.
São José dos Campos recebeu dele uma obra de amor e inteligência: São José dos Campos — Várias rotas, um destino. José Guilherme compreendeu que uma cidade não se constrói somente com concreto, indústria e grandes projetos, mas também com lembranças, personagens, caminhos, escolhas e vozes audíveis ou abafadas. Escreveu sobre São José como quem percorre uma casa antiga, abrindo portas com respeito, reconhecendo os sinais do tempo e devolvendo aos moradores a consciência de pertencerem a uma história.
Sua morte deixa um vazio difícil de nomear. Fica a cadeira diante da mesa, a coluna que não chegará, a conversa que terminou cedo demais, a janela que ainda continuará aberta, embora sem aquele olhar capaz de transformar a paisagem em pensamento. Ficam os livros, as pinturas, as reportagens, as páginas editadas, os jornalistas que aprenderam com ele e os leitores que sempre esperaram ansiosamente por suas palavras.
José Guilherme Rodrigues Ferreira dedicou a vida a observar, compreender e narrar. Fez do jornalismo uma forma de responsabilidade, da literatura uma extensão da amizade e da cultura uma maneira de estar no mundo.
José Guilherme despede-se do tempo, mas permanece inteiro naquilo que nenhum adeus consegue alcançar: a palavra. E enquanto existir um leitor disposto a encontrar beleza, inteligência e humanidade numa página, sua voz continuará viva, luminosa e indispensável.
Fabrício Correia é jornalista, escritor e presidente da Academia Joseense de Letras. Publisher do suplemento SPRIOMAIS Acontece, conviveu diariamente com José Guilherme entre 2025 e 2026.