
A certa altura da vida, quase todos os escritores descobrem que não escreverão sobre o mundo, mas sobre aquilo que o mundo deixou dentro deles. Alguns transformam essa descoberta em lamento. Outros, em teoria. Fabrício Corsaletti fez algo mais raro: transformou-a numa forma de companhia.
Ao abrir Um Milhão de Ruas, o leitor não encontra apenas a reunião de quinze anos de crônicas, poemas em prosa, anotações errantes e lembranças recolhidas durante caminhadas sem destino muito claro; encontra sobretudo o registro de uma consciência em permanente estado de vigília afetiva, alguém que parece atravessar os dias com a estranha impressão de que tudo merece ser salvo do desaparecimento, desde uma conversa interrompida num balcão de bar até a luz de uma tarde qualquer pousada sobre uma fachada esquecida do interior paulista.
Existe um momento da maturidade em que a literatura deixa de procurar acontecimentos e passa a procurar permanências. Corsaletti escreve desse lugar. Seus textos não dependem de grandes revelações, reviravoltas ou epifanias cuidadosamente arquitetadas. O que os sustenta é uma percepção muito mais difícil de alcançar: a de que a vida distribui seus segredos em doses mínimas, quase invisíveis, e de que o trabalho do escritor consiste menos em inventar do que em reconhecer.
Por trás do humor, das bebedeiras, dos cavalos, dos bolinhos servidos em botecos da Liberdade, das conversas sobre canções populares ou dos personagens encontrados em esquinas de Santo Anastácio e São Paulo, existe sempre uma questão mais funda atravessando a página: o que exatamente permanece quando os dias acabam?
Essa pergunta percorre o livro inteiro sem jamais ser formulada diretamente. Ela aparece nas figuras que envelhecem, nos bares que desaparecem, nos amigos que mudam de endereço, nas ruas que continuam existindo enquanto aqueles que as percorreram vão sendo lentamente empurrados para o território da memória. Corsaletti parece compreender que toda paisagem é também um arquivo sentimental e que caminhar nunca significa apenas deslocar-se pelo espaço; significa atravessar sucessivas camadas de tempo.
Leia mais: “Pequenos Sigilos” e a difícil arte de permanecer humano
Talvez por isso suas melhores crônicas provoquem uma emoção tão particular. Não se trata da nostalgia convencional, interessada em idealizar o passado. O que existe nelas é uma percepção mais complexa e mais dolorosa: a consciência de que tudo aquilo que amamos já começa a desaparecer no instante mesmo em que acontece.
Poucos escritores brasileiros contemporâneos alcançaram tamanha intimidade com o transitório.
Lendo estas páginas, recordei frequentemente uma observação de Cesare Pavese, segundo a qual não nos lembramos dos dias, mas dos momentos. Corsaletti parece ter dedicado boa parte de sua obra justamente à tarefa de impedir que esses momentos se dissolvam completamente. Cada texto funciona como uma pequena operação de resgate. Não do extraordinário, mas do quase insignificante; daquilo que normalmente escapa aos livros porque parece pequeno demais para merecer registro. E talvez resida aí sua força.
Num país que tantas vezes confundiu boa literatura com grandiloquência, Corsaletti construiu uma obra baseada na confiança absoluta de que uma vida comum, observada com inteligência, humor, ternura e rigor verbal, contém matéria suficiente para sustentar uma visão de mundo inteira.
Ao final de Um Milhão de Ruas, permanece a sensação de ter convivido durante algumas centenas de páginas com alguém que aprendeu uma lição que escapa à maioria dos homens: a de que a existência não se revela nos grandes acontecimentos que organizam as biografias, mas nas cenas aparentemente secundárias que sobrevivem quando todo o resto já foi esquecido. É por isso que este livro emociona tanto.
Porque fala de ruas, de bares, de música, de amigos e de viagens, mas fala sobretudo daquilo que nenhum mapa consegue registrar: a lenta construção de uma alma ao longo dos anos. E poucas aventuras literárias são tão vastas quanto essa.