
Ontem eu estava tentando combinar um reencontro anual com um amigo que mora na capital. Comentei que não tinha muito dinheiro para ir até São Paulo durante o período de férias da faculdade dele e ele sugeriu o contrário: que viria para São José dos Campos.
“Fazer o quê?”, pensei.
São José é uma grande cidade para se viver. Um tipo de lugar bom. “Bom mesmo…“. Mas, quando eu, um joseense de sangue por pelo menos três gerações, patriota do meu município, fui tentando apresentar as possibilidades do que fazer por aqui e observando as reações do meu amigo, morador da Mooca, percebi que nada parecia impressioná-lo.
Mencionei o Parque da Cidade, Vicentina Aranha, Santos Dummont, o recém inaugurado Museu da Casa Brasileira, na arquitetura única de Rino Levi, a Residência Olivo Gomes, as inúmeras programações culturais, a belíssima mata atlântica de São Francisco Xavier… Nada o agradava.
Afinal, como convencer alguém que vive em uma metrópole com oferta praticamente infinita de cultura, lazer e entretenimento a visitar a cidade do avião?
Foi então que a conversa mudou de rumo. Em vez de pensar apenas em São José, comecei a listar tudo o que existe ao redor. Tentei criar ideias de lugares em volta de São José que valessem mais a pena de tirar um paulistano da selva de pedra.
Essa lógica é justamente a base do Circuito Serra, Fé e Mar, iniciativa lançada neste ano que reúne 16 municípios da Serra da Mantiqueira, Vale do Paraíba, Vale da Fé e Litoral Norte em um único produto turístico. Em vez de competir entre si, as cidades passam a ser vendidas como partes de uma mesma viagem.
“Quem não é visto não é lembrado“
A proposta parte de uma constatação simples: poucos municípios da região conseguem, sozinhos, manter um turista por vários dias. Mas, quando seus atrativos são combinados, São José vale uma visita, ao virar um intermediário das cidades da região. O visitante deixa de viajar para conhecer apenas uma cidade e passa a percorrer uma região inteira.
Foi esse conceito que reuniu, nesta quinta-feira (2), representantes do setor de turismo no Aeroporto Internacional de São José dos Campos, durante o 1º Encontro de Negócios do Circuito Serra, Fé e Mar. O objetivo foi apresentar esse novo produto a agentes de viagens, operadoras e empresários responsáveis por montar pacotes turísticos.
Segundo Luís Sobrinho, consultor da Invest São Paulo, ligada à Secretaria de Turismo e Viagens do Estado, a regionalização é o caminho para tornar o destino mais competitivo. A ideia é reunir hotéis, restaurantes, parques, vinícolas, queijarias, atrativos naturais e culturais em um único roteiro, capaz de atender tanto quem planeja as férias com meses de antecedência quanto o turista que decide viajar de última hora.
“Precisamos juntar todos os atrativos que temos e fazer um produto só, para colocá-lo na prateleira das grandes operadoras. Quem não é visto não é lembrado”, afirmou.
Para São José dos Campos, a estratégia tem um peso ainda maior. A cidade concentra boa parte do turismo corporativo da região, impulsionado pelas grandes empresas e pelo setor aeroespacial, mas tradicionalmente encontra dificuldades para manter visitantes após o fim dos compromissos de trabalho. Ao se posicionar como porta de entrada de um roteiro regional, passa a oferecer motivos para que esses turistas prolonguem a estadia e conheçam outros destinos próximos.
Não por acaso, o Aeroporto Internacional de São José dos Campos é um dos idealizadores do Circuito Serra, Fé e Mar e também promoveu o encontro de negócios realizado nesta quinta-feira. A ideia é transformar o terminal não apenas em um local de embarque e desembarque, mas no principal ponto de chegada de quem pretende conhecer a região, conectando, a partir de São José, destinos de praia, montanha, turismo religioso, natureza e negócios.
Ir até São José dos Campos passa a ter muito mais sentido quando você percebe que está a uma hora das praias do Litoral Norte, a uma hora da Serra da Mantiqueira e a pouco mais de uma hora da capital.
Fica muito mais fácil convencer alguém de uma metrópole, com cultura e lazer de sobra, quando você começa a falar das praias, do “friozinho” de Campos do Jordão, dos casarões históricos de Cunha, da Basílica de Aparecida e de tudo o que existe por aqui. O erro em vender São José é ignorar tudo o que temos ao nosso redor. E é justamente isso que nos torna mais fortes.
No fim das contas, talvez meu amigo tenha feito a pergunta certa. O erro não estava em responder o que fazer em São José dos Campos. Estava em responder apenas “São José dos Campos”.
Veja mais detalhes: Circuito Serra, Fé e Mar apresenta roteiro de 16 cidades em encontro no Aeroporto de São José