
É tempo de Copa do Mundo e, enquanto todos estão olhando para os craques mundiais, os ninhos formadores trabalham diariamente para criar as novas estrelas.
Mesmo em dias de chuva forte e manhãs frias, a dedicação traduz o sonho de pisar no gramado com a camisa da Seleção.
“Jogar uma Copa do Mundo é um sonho de todos nós, e os jogadores brasileiros são referências para seguir melhorando e se dedicando. Dá até para ver os dribles, passes que eles fazem e tentar repetir“, segundo Pedro Henrique, de 17 anos, atleta do sub-20 do Atleta Cidadão, projeto público de formação esportiva em São José dos Campos.
Nessa hora, o papel dos projetos e escolinhas é fundamental. Em São José, são pelo menos 20 escolinhas e quase 1.500 alunos que seguem esse caminho.
O Atleta Cidadão, que abrange desde o sub-11 até o 20, tem 277 atletas cadastrados. Os treinos são realizados diariamente no campo do Vasquinho, no Parque da Cidade.
No São José Esporte Clube, a base desenvolve cerca de 100 atletas entre as categorias sub-15, 17 e 20. Os jovens treinam no Estádio Martins Pereira, casa da equipe profissional da Águia do Vale.
Caminho difícil

Em busca do sonho, meninos viajam pelo Brasil para aproveitar oportunidades. Na maioria dos casos, os atletas passam um curto período em cada clube e vão “pulando” de cidade em cidade até acharem seu lugar ao sol.
No próprio Atleta Cidadão é possível notar os sotaques diferentes de diversos estados que, juntos, formam uma equipe única.
“Eu gosto de trabalhar com garotos que tiveram vivências em lugares diferentes, porque eles agregam coisas que, se você olhar só para a nossa região, não vão ter. Assim, o time fica mais competitivo“, disse Gabriel Trementosa, preparador físico do sub-17 e 20 do programa há cinco anos.
Para Wesley Murilo, conhecido como Kekel, foi necessário dar um passo para trás até voltar a fazer o que mais gosta.
O volante de 18 anos, natural de Sorocaba, já jogou profissionalmente pelo Juventus e Nação, clubes de Santa Catarina, mas chegou em São José após ser dispensado.
“Eu estava sem clube, mas, graças a uma indicação de um amigo do treinador, vim para o projeto daqui. Se Deus quiser, nós vamos longe com esse time“, completou Kekel.
Sua maior inspiração é o francês Paul Pogba, pela similaridade no estilo de jogo e função em campo.
Neymar ainda é o cara

A Seleção Brasileira é símbolo histórico de personalidade e, quando se trata de referência, Neymar é unanimidade para os jovens.
“O drible e a responsabilidade de puxar o jogo são diferenciais dele“, complementou Pedro Henrique.
“O brilho e a persistência dele me prendem“, disse Murilo Gomes, de 16 anos, atleta do sub-17 do São José Esporte Clube.
“Mesmo ele não estando 100%, é a peça diferencial que pode chamar o jogo. Assisto a ele desde pequeno“, destacou Felipe Donatelli, de 19 anos, do sub-20 do Atleta Cidadão.
Formação é crucial
No processo de desenvolvimento dos adolescentes, comissão técnica, preparadores físicos e auxiliares têm um papel fundamental no acompanhamento.
O técnico do São José sub-17, Fábio Antunes, acredita que a Copa e seus craques podem ser um gás extra para motivar os garotos.
“A sociedade é muito influenciada pelas redes e, neste momento, em que a Copa está em todos os lugares, os meninos podem consumir o nível mais alto de futebol, o que ajuda até na absorção deles durante os treinos. Também vejo que jogadores como Cristiano Ronaldo, Messi, Mbappé e Haaland acabam virando referências”.

O mundial não serve só para os atletas. O treinador também usa a Copa para extrair novidades e expandir o repertório tático.
“O futebol me inspira desde a hora que acordo até a hora que vou dormir. A Copa é uma fonte muito rica de formas diferentes para enxergar o jogo. É um momento para estar atualizado e tentar trazer para a realidade.”
Ao fazer um contraponto, Fábio destaca que a evolução do sistema também deve passar pelo corpo técnico: “Eu vejo que temos ótimos profissionais no país, mas ainda temos pessoas que não têm a visão adequada para a base. Isso é tóxico para os atletas e o futebol deixa de fazer sentido.”
Mesmo na base, esporte de alto rendimento requer resultados positivos para direcionar o caminho. Segundo Fábio, aliar boa formação e vitória é o cenário ideal:
“Aqui dentro, não podemos nos restringir a apenas ser campeões, mas temos que fazer bons trabalhos e seguir melhorando nos campeonatos. Existe uma linha tênue entre resultado e formação, mas não podemos separar essas coisas, porque a gana de vencer influencia no aspecto tático e mental”.
A ligação afetiva
Para muitos, a Copa é a porta de entrada para o esporte mais acessível e democrático: uma meia enrolada vira bola, um par de chinelos vira gol e qualquer espaço vira campo.
Desde que inventaram o esporte como é conhecido, lá na Inglaterra, no século XIX, existe uma magia que liga o Brasil ao futebol e transforma crianças em ídolos, craques, gênios que marcam gerações.
Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Romário, Rivaldo, Kaká, Cafu, Roberto Carlos, Adriano, Neymar, Zico, Leônidas, Careca, Garrincha, Jairzinho, Vavá, Ademir de Menezes e o Rei Pelé. A lista é grande e mostra um pedaço pequeno de tudo que a camisa amarela representa na Copa.

Todas essas figuras servem de inspiração para as novas gerações, que têm chances de mostrar seu valor a cada 4 anos. É por isso que o ciclo é fundamental. As crianças precisam ver jogadores com a alma do futebol brasileiro, o “Joga Bonito”, e despertar a vontade de ser o próximo craque a vestir a amarelinha.
O caminho é difícil, demanda dedicação, disciplina, resiliência e muito treino para chegar ao mais alto nível de um esporte tão complexo e detalhista. Mas, para quem sonha desde pequeno, isso tudo faz parte de um caminho que parece até natural.
“Sofri uma lesão no LCA (ligamento cruzado anterior) e fiquei um ano sem jogar. Várias vezes pensei em parar, mas, ao assistir aos jogos e também ver meus companheiros em campo, a vontade de voltar era maior. Graças a Deus pude voltar 100% para buscar meu sonho de chegar ao profissional“, concluiu Felipe Donatelli.
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