
Acompanhar a Copa do Mundo de futebol foi uma aula de identidade cultural. Cada seleção e cada povo torcedor traziam, na sua maneira de torcer e de jogar, as marcas de sua cultura. Especialmente em competições, são evidentes as distinções entre as nacionalidades.
Aquilo que une uma comunidade vira símbolo de força e, ao mesmo tempo em que reforça o sentido de grupo, age para diminuir a importância do outro – neste caso, como ocorre nas guerras, o outro é visto como rival. Fortaleço minha cultura sobrepondo-a às culturas dos oponentes.
Não à toa, sobraram exemplos de comparações entre as torcidas e entre os jogadores. Qual o hino mais bonito? Que grito “de guerra” de torcida é o mais forte? Que jogador mais se identifica com o espírito de seu país? Qual a vestimenta tradicional que a TV mais se empenhará em mostrar?
Da mesma forma como ocorre na Copa, outras heranças mobilizam a população. No Vale do Paraíba, a tradição das quermesses e dos bolinhos caipiras é algo que sensibiliza boa parte dos habitantes e, neste ano, Copa e festas juninas aconteceram quase simultaneamente.
Uma das estrelas dessas festas é o bolinho caipira, e a região reúne grande diversidade de modos de preparo da iguaria. Pelo menos nas cidades de São José, Jacareí, Caçapava e Taubaté o modo de feitura é motivo de orgulho. Em alguns casos, motivo de rivalidade. Cada cidade preserva as características tradicionais de seu preparo e entende que o seu modo de fazer é o original.
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Em 2010, uma dessas cidades reconheceu o bolinho como seu patrimônio cultural. Segundo informação publicada à época, o vereador autor da iniciativa “buscou, com a lei, preservar e proteger este patrimônio local, que estava ameaçado por um projeto de lei da cidade vizinha”. O texto divulgado no site do vereador informava, ainda, que havia sido constatado, por meio de levantamento histórico, que o quitute regional havia nascido naquela cidade e que, portanto, fazia parte do DNA do município.
Diferentes entre si, esses quitutes carregam a cultura de sua cidade. Na dúvida sobre qual das delícias teria sido o primeiro bolinho do Vale, ou movido por uma inquestionável certeza, o legislador apressou-se em garantir a proteção de um bem cultural que, não fosse isso, estaria ameaçado por influências diversas.
Mas será, mesmo, que é possível proteger uma cultura das suas intersecções e influências? O quanto se pode afirmar que um fato cultural sempre esteve isolado e, por isso, é puro o suficiente para que só represente uma comunidade e não as outras a seu lado?
O historiador inglês Eric Hobsbawn trata do assunto no livro “A Invenção das Tradições”, em que desconstrói nossa crença em heranças culturais que julgávamos representar um povo desde sempre.
Ele cita o kilt escocês, que foi criado, na verdade, por manufaturas de tecelagem na Inglaterra. Da mesma forma, a calça conhecida como a vestimenta tradicional do gaúcho, a bombacha, tem origem na Turquia e só passou a ser largamente utilizada no sul do país no final do século 19.
Vários outros exemplos, do vestuário à música, da gastronomia à linguagem escrita ou falada, nos ensinam que as culturas passeiam por sobre as fronteiras. Se é importante saber que a cultura de uma comunidade cria laços que a fortalecem, é igualmente sensato acreditar que nenhuma identidade se forja de forma isolada no mundo.
Identidade e diversidade são conceitos que caminham lado a lado. Especialmente em uma época em que o mundo digital conecta pessoas e culturas com velocidade impressionante, é difícil imaginar uma comunidade que evolua sem influências externas. Pode ser imperativo, em alguns casos, preservar os bens culturais da coletividade em seu formato original, mas quando e como fazê-lo?
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Reconhecer uma manifestação cultural como parte da cultura de um lugar pode ser importante sob alguns aspectos, mas imaginar que a vivência dessa manifestação pelas pessoas será conduzida pelos termos de um decreto parece estar distante do que ocorre na realidade. Caso isso acontecesse, os bens classificados como patrimônios material e imaterial pelo IPHAN estariam todos livres de riscos, o que não é verdade.
Exemplo disso é o desenho Kene Kui, ou “desenho verdadeiro”, arte gráfica que é a base da cultura visual do povo Huni Kui (Kaxinawá), do Acre. Por sua relevância para a identidade indígena, os grafismos geométricos usados em pinturas faciais e no artesanato foram registrados como patrimônio cultural pelo IPHAN, que, no entanto, destaca em suas diretrizes para a salvaguarda do bem cultural que há o “desafio da apropriação indevida do kene por não-indígenas”. Da mesma forma, as tradições indígenas sofrem influência das culturas com que seus povos convivem.
Culturas e tradições muito fortemente arraigadas costumam repelir o diferente, como acontece, por exemplo, em cidades estadunidenses com grande número de imigrantes e em outras comunidades mundo afora, nas quais as tradições se encontram e se mesclam. Em muitas situações, a resposta para esse contágio é a violência, a expulsão pela força, numa tentativa ineficaz de frear o movimento natural das culturas.
O curioso nessa história é que nenhum de nós cresce sem as contribuições de um outro. Queiramos ou não, somos o resultado das diferenças que nos formaram e seríamos indivíduos menos ricos se tivéssemos crescido em uma cultura sem influências. Como disse Montesquieu, ainda no século 18, “é preciso mostrar à alma coisas que ela ainda não viu”.
O jeito brasileiro de jogar futebol não pôde, infelizmente, ser protegido por um decreto ou por um registro oficial do IPHAN. Mas o bolinho caipira segue firme, dando mostras de que, mesmo sem decretos em todas as cidades, é sua adoção pelas pessoas que o faz forte. Ele é a prova incontestável de que o fato cultural autêntico não necessita de validações institucionais.
Patrimônio regional, o bolinho é ao mesmo tempo diverso e único. Diverso na variedade de preparos, único para cada cultura que o moldou. Há algo de muito valioso nesse aspecto de nossa cultura regional. Portanto, que nossas tradições nos mantenham coesos, desde que não nos coloquem radicalmente em oposição uns aos outros. Como deveria acontecer no futebol.