Há muitos anos, li uma carta de Umberto Eco ao filho Stefano. Procurei-a em minha bagunça literária e, claro, não achei. Na internet ela aparece em trechos, mas será suficiente aqui.

E então, Stefano
…
Então ofereço-te espingardas. De dois canos. De repetição. Com mira telescópica. Canhões. Bazucas. Sabres. Exércitos de soldadinhos em formação de batalha. Castelos com pontes levadiças. Metralhadoras, punhais, revólveres de tambor. […] Armas, em resumo, meu filho, muitas armas, só armas. São o que te dará o teu Natal.
[…]
Stefano, meu filho, hei-de oferecer-te fuzis. Porque um fuzil não é um jogo. É só o elemento potencial de um jogo. A partir daí tem sempre que se inventar uma situação, um conjunto de relações, uma dialética de acontecimentos. Terás que fazer “pum!” com a boca, e descobrirás que o jogo vale pelo que nele conseguimos
incluir, e não pelo que encontramos já dado. Imaginarás inimigos, e satisfarás um impulso ancestral que nenhuma camada de civilização conseguirá jamais anular, a menos que faça de ti um neurótico pronto para o exame administrativo através do Rorschach. Mas ao mesmo tempo aprenderás que destruir os inimigos é uma convenção lúdica, um jogo entre os jogos, e fixarás assim que se trata de uma prática estranha à realidade, da qual, através do jogo, conhecerás bem os limites.
[…]
Mas se por acaso, quando fores grande, tiveres ainda por dentro as figuras monstruosas dos teus sonhos infantis, as bruxas, os cowboys, os exércitos, as bombas, as mobilizações forçadas, talvez não tenhas assumido, nesse caso, a devida consciência crítica perante as fábulas, nem aprendido a mover-te criticamente no interior da realidade.
Bom saber que no jogo podemos colocar todos os nossos anseios e tudo bem. Durante o desenvolvimento da criança o pensamento concreto se converte em pensamento simbólico e ela pode entender por que o céu não cai – com tanta gente que vai pra lá. Podemos destruir um inimigo sem precisar jogar uma bomba
no seu quintal.
Não compartilho a ideia de que filmes de super-heróis ou os tipo Tarantino induzem a comportamentos violentos. Se pudermos ver o que está na tela como algo externo, sairemos do cinema com a consciência de que aquilo é uma representação. E saímos
transformados com o poder da arte.
Se o que vemos no cotidiano são pessoas se agredindo, gritando, socando-se, a agressividade não é externa, não é fantasiosa. Ela, ao ser a própria realidade, desperta o monstro interno e estimula o efeito manada. E vemos a vida ser
desvalorizada, que pode ser trocada por um celular.
Assim como gentileza gera gentileza, o contrário é verdadeiro: violência gera violência.
Mês passado, fizemos um cinedebate com Não Há Mal Algum, do iraniano Mohammad Rasoulof. Uma reflexão sobre a pena de morte e sobre pessoas incapazes de resistir às ordens recebidas. São retratados os homens comuns, “normais”, bom pai, bom filho, bom marido. Homens que não tomam multas, que fazem a limpeza da casa e colocam os filhos para dormir. Homens banais. Serão
maus?
O termo banalidade do mal vem bem a calhar, porque Hanna Arendt (filósofa-política alemã, judia), diz que o sujeito banal teria de “sacrificar suas convicções, honra e dignidade humana” para que se pudesse aceitar o nazismo (ou qualquer
outra imposição).
Nossa sociedade, cansada, não se surpreende com mais nada. Perdemos a capacidade de indignação. Não nos é permitido pensar. E segundo Arendt, “o mal talvez esteja intimamente relacionado com a ausência de pensamento naquele que o pratica.”

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