Se quiser assistir a um filme bom, que tem um roteiro bom, com elenco ótimo e faz a gente pensar depois que acaba, veja Ficção Americana.
O roteiro é adaptado do livro Erasure (inédito no Brasil) de Percival Everett. O personagem principal (Jeffrey Wright) por se chamar Thelonius Ellison, recebe o apelido de “Monk”. Um escritor que está em crise, porque suas publicações anteriores são consideradas difíceis, intelectualizadas. O seu agente literário acha que ele não fala de pretos “de verdade”.

Ele conhece Sintara Golden (Issa Rae), uma jovem que faz sucesso com um livro banal. Monk decide usar um pseudônimo e escreve um livro cheio de clichês sobre a vida de um homem preto americano, para fazer uma provocação aos editores. E não só é publicado, como vira bestseller e é comprado por Hollywood.
Existem as tramas paralelas, relações familiares complicadas, encontros e desencontros amorosos, muita ironia e bons diálogos.
O que me prende ao filme é a resistência de Monk em aceitar que o sucesso comercial é superficial e cheio de “tudo isso já foi contado”. Podemos levar o pensamento dele para qualquer tema.
Se você tem mais de 40 anos, provavelmente, dá um Google quando quer pesquisar alguma coisa. A moçada faz a busca no TikTok. Eles veem vídeos!
Leia mais de Ofício das Palavras: Quem diria que a IA já está em crise?
É pior? Não, é diferente.
Tem muita gente escrevendo. Muito mais do que tem leitores. Mas cada autor tem seu público leitor, nem que seja só a família. Qualquer um pode gravar uma música no quarto e alguns ganham dois Oscars com menos de 23 anos, como a Billie Eilish.
Na década de 1990, não existiam os smartfones, os computadores eram escassos, assim como eram escassos os milionários. Hoje, qualquer um que tenha a sorte de cair no gosto do público, pode ser um influencer e ganhar milhões.
O Instagram tornou conhecidos alguns poetas (já leu Rupi Kaur?) chamados Instapoets.
Eu gosto mais de escritores que trabalham a linguagem (Clarice Lispector) do que os que contam uma ótima história (Jane Austen). É um gosto pessoal. Também acho que as boas histórias rendem mais vendas do que os que buscam as palavras exatas.
Se você viu o filme, diga o que achou! O espaço para os comentários está lá embaixo dos comerciais.
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