Neste fim de semana (entre os dias 22 e 26) acontece a Festa Literária Internacional de Paraty. A mais festejada do país, deixou de ser um lugar de encontro para quem curte livros e se expandiu para outros territórios, além das questões puramente literárias. O texto da página inicial do evento, traz: “Em 2023, a Flip segue em busca da criação de outras formas de visitar as paisagens de dentro e fora”.
Na 5ª edição da Flip, a Nobel de Literatura 1991, Nadine Gordimer, que já falava de paisagens, esteve ao lado de J. M. Coetzee (também sul-africano, Nobel 2003, À Espera Dos Bárbaros); Mia Couto (Terra Sonâmbula); Amós Oz (De Amor e Trevas). Todos são escritores que viveram alguma guerra. Falaram sobre liberdade (em todos os sentidos); sobre o poder da literatura.

“Qualquer escritor que tenha um mínimo de valor espera propiciar um brilho tênue para iluminar o labirinto belo e sangrento da experiência humana,” disse Nadine. Sempre muito simpática, conversou com quem se aproximou dela, nas ruas, no barco, nas ilhas.
O livro De Volta À Vida (Companhia das Letras), é a leitura escolhida para o #clubedolivrodaofício (dia 28/11/23, às 19 horas, on-line, gratuito). O protagonista é um ativista que tenta evitar a construção de uma usina nuclear na África do Sul.
Em uma roda de entrevistas, um repórter perguntou se ela sabia que estamos a alguns quilômetros das duas únicas usinas nucleares brasileiras (Angra 1 e Angra 2), e que uma terceira será construída (previsão para 2027).
“Não, não sabia! É verdade? No meio dessa vegetação fantástica… É terrível. No último verão nossa usina nuclear, que fica inacreditavelmente perto da Cidade do Cabo, foi desligada porque alguém derrubou uma ferramenta no lugar errado. É uma coisa assustadora. A energia nuclear é limpa e segura até o dia em que te mata. Por outro lado, o carvão, que a África do Sul está deixando de usar, mata lentamente”.
“Espero que a população daqui fique atenta para que não abram, no centro histórico, lojas do McDonald’s e de outras dessas cadeias que fazem o mundo ficar tão parecido hoje em dia”.
Gordimer disse acreditar que, quanto maior for a demanda das pessoas por informações, mais importante será o papel dos livros e que “há alguns anos, diziam que o romance estava morto, mas na verdade está longe disso. O romance evolui constantemente, tentando achar novas formas de capturar o mistério da vida”.
Veja mais de Ofício das Palavras: O Assassino (The Killer, Netflix, 2023)
Dedicou-se a dramatizar as difíceis escolhas morais surgidas numa sociedade marcada pela segregação racial. Batalhou pela liberdade de expressão, esteve à frente de projetos para angariar recursos para vítimas da Aids, foi feminista e denunciou crimes ecológicos.
“O melhor dos escritores está no que eles escrevem, nos livros. É melhor ler os livros e não encontrar o autor”. Não concordo com a frase, se aplicada à vida de Nadine. O encontro com ela e sua escrita foi como nadar no mar.
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Nadine Gordimer (1923-2014), Nobel de Literatura 1991, autora de mais de 30 livros, na Flip 2007.
Get a Life – De Volta à Vida (tradução de Ivo Korytowski)

Uma série de eventos dramáticos envolvendo a família de Paul Bannerman, um ecologista de 35 anos, após a operação de um tumor maligno na tireoide; o pai, que numa viagem ao México, conhece outra mulher e nunca mais volta; a mãe, que adota uma menina negra de três anos (estuprada, contaminada com o vírus HIV e abandonada).
Cenas cotidianas tecidas num pano de fundo que Nadine produz tão bem. “Uma meditação séria e belamente escrita sobre o casamento e a solidão”, Stephanie Cross, Daily Mail.
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