
Donald Trump chegará a 2027 politicamente enfraquecido, depois de perder para os democratas o controle das duas casas do Congresso americano. O resultado das eleições de meio de mandato representa a mais contundente rejeição popular ao seu segundo governo e modifica o ambiente internacional em que Luiz Inácio Lula da Silva iniciará seu quarto mandato. A coincidência entre a reeleição do presidente brasileiro e o revés republicano altera a correlação de forças nas Américas, embora esteja longe de encerrar as disputas econômicas entre Brasília e Washington.
A derrota de Trump está associada ao desgaste de uma política que combinou protecionismo comercial, confrontos diplomáticos e intervenção militar no Oriente Médio. A guerra contra o Irã, com seus reflexos sobre o petróleo e a inflação, agravou a insatisfação de eleitores preocupados com o custo de vida. O presidente, eleito com a promessa de recuperar a prosperidade americana, viu sua agenda internacional tornar-se um passivo doméstico. A perda de cadeiras em estados tradicionalmente republicanos ampliou a dimensão política do resultado.
Para Lula, a nova composição do Congresso oferece uma oportunidade de reduzir as tensões comerciais acumuladas desde a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros. Os democratas poderão investigar os efeitos dessas medidas, pressionar pela revisão de restrições e ampliar a interlocução com empresas prejudicadas pelo encarecimento das importações. A indústria aeronáutica, a siderurgia e outros setores exportadores têm interesse direto nessa mudança. O protecionismo, entretanto, não constitui exclusividade republicana, e o presidente americano conserva poderes relevantes na condução da política comercial.
A vitória democrata também interfere na estratégia de Trump para a América Latina. A tentativa de fortalecer governos alinhados à direita americana encontra agora um Congresso adversário e um presidente brasileiro recém-reeleito. Brasília poderá ampliar sua atuação regional, sobretudo nas negociações econômicas e nos debates sobre a Venezuela, sem depender exclusivamente do relacionamento com a Casa Branca.
O principal limite dessa aproximação continuará sendo a China. Washington considera a expansão comercial e tecnológica chinesa um desafio estratégico, posição compartilhada por setores dos dois partidos. Para o Brasil, cujo maior parceiro comercial é Pequim, a rivalidade exige equilíbrio diplomático. A participação no BRICS e a busca de novos mercados oferecem alternativas, mas não eliminam a importância dos investimentos americanos nem os riscos de uma economia internacional fragmentada.
A reação dos mercados à eleição, marcada pelo enfraquecimento do dólar e pela valorização das bolsas, refletiu expectativas de maior contenção das iniciativas de Trump. A possibilidade de impasses orçamentários, contudo, poderá produzir novas turbulências. O Brasil continuará exposto às decisões do Federal Reserve, à evolução da guerra no Oriente Médio e às oscilações dos preços internacionais de energia.
A vitória democrata ocorre ainda quando Lula enfrenta pressões sobre a política fiscal e a necessidade de recuperar a confiança dos investidores. O enfraquecimento de Trump poderá facilitar negociações, mas não substituirá uma estratégia brasileira de inserção econômica internacional.
O alcance da derrota republicana, porém, ultrapassa as relações com Brasília. Ao conquistar posições em redutos conservadores, os democratas atingiram a própria base eleitoral que sustentou o retorno de Trump ao poder. O presidente perdeu a maioria legislativa e, com ela, a capacidade de apresentar suas decisões como expressão de um consenso nacional. Em janeiro, encontrará um Congresso disposto a investigar sua administração e disputar os rumos da política americana. Para Lula, a consequência mais importante será negociar com um governo que continuará poderoso no exterior, mas cuja autoridade foi severamente contestada pelos próprios eleitores.
Fabrício Correia é escritor, historiador e professor universitário. Analista político da agência de notícias “Conversa de Bastidores”, mantém coluna semanal de opinião no “Jornal da Manhã” da Jovem Pan – São José dos Campos.