
Lembro-me de que sempre tive interesse por política desde muito novo. Comecei aos 13 anos, quando fiquei interessado nas aulas de história e filosofia. Aristóteles, Revolução Francesa, Idade Média, Primeira e Segunda Guerra Mundial. Todos esses temas fervilhavam em minha mente e me enchiam de ansiedade para ler livros sobre o assunto.
Aos 14 anos, comecei a ler A Política, de Aristóteles. Achei que seria um bom começo, e definitivamente não foi. Naquela idade, deveria imaginar que ainda não tinha repertório suficiente para começar uma leitura tão pesada, mas foi assim que dei a largada no meu interesse pela política em geral.
Sempre busquei ler direto da fonte e lembro-me de receber, por meio do algoritmo do YouTube, um compilado de “mitadas” de um deputado chamado Jair Messias Bolsonaro. Acabei me identificando com a direita conservadora naquela época. Bem diferente de hoje. Atualmente, não me vejo representado pela divisão tradicional entre direita e esquerda. Dizem que extrema direita e extrema esquerda são próximas e que a política é uma ferradura: os dois extremos estão mais próximos do que parecem, eu me vejo aqui, entre os dois polos, no topo da ferradura. Mas este texto não é sobre minha opinião atual, e sim sobre o meu Halloween político.
Lembro-me de discutir Friedrich Hayek e tentar ler Livre Mercado e Seus Inimigos, de Ludwig von Mises. Eu tinha 14 anos e acreditava que a política iria melhorar. Se eu, um adolescente, lia livros do tipo, os adultos, sem dúvida, leriam cada vez mais.
O mais assustador da nossa atualidade é ver que nada disso se concretizou. Pelo contrário, aconteceu o inverso. Hoje, temos adultos que acreditam fielmente no que seus líderes dizem. Não procuram ler ou conhecer diferentes pensamentos políticos, consomem conteúdo apenas por vídeos e simplesmente confiam, por confiar, em absolutamente qualquer um.
Tive o prazer de conhecer um pouco de diferentes ideologias. Passei por fases que iam de Olavo de Carvalho a Rousseau, transitei e passeiei por diferentes militâncias. Meu maior aprendizado disso tudo é justamente que os fanáticos são exatamente a mesma coisa. O que muda é quem tem a bota lambida.
Essa é a parte do texto em que os dois lados pensam um no outro, mas nunca em si próprios:
O fator assustador é ver que, dez anos depois da minha politização, uma quantidade absurdamente grande de marmanjos se vê prisioneira das próprias barreiras cognitivas, grilhões feitos de discursos de lideranças que pouco se importam com eles. O massacre aqui não é com serra elétrica, é intelectual: tornar brasileiros Cains uns para os outros na defesa de seus bezerros de ouro.
Aos meus 14 anos, direita era Adam Smith, livre mercado, menor atuação estatal, uma suposta defesa maior das liberdades individuais e uma filosofia mais individualista. Hoje, ser de direita, para alguns, é ter como bezerro de ouro alguém da família Bolsonaro, uma suposta defesa da “boa moral e dos bons costumes” e uma fixação por banheiro, Estados Unidos e Israel. Assim como a esquerda, para outros, hoje se resume à Palestina, maconha, aborto e pautas identitárias.
Muitos simplesmente não procuram beber do conhecimento da própria filosofia de vida. Preferem receber suas convicções das mãos de outros, em vez de recorrer à fonte. O mundo seria muito menos assustador se as pessoas defendessem ideias com as quais realmente concordam e nas quais veem sentido, em vez de assinarem um pacote de ideais e se verem obrigadas a digladiar para defender corruptos.
Vou além e digo que fico esperançoso ao ver pessoas surgindo no cenário nacional, mesmo que eu não concorde politicamente com elas. Pensar em figuras como Jones Manoel, Renan Santos, Guilherme Cortez, Felicio Ramuth, Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas disputando eleições é um cenário mais promissor do que o atual. Afinal, existem ideias, existe diálogo (por ora). Não é uma briga deselegante de galos batendo com esporas, mas algo muito mais próximo de um debate democrático saudável, com a defesa de ideias acima de pessoas.
Por ora, essa é minha visão, mas, no balanço das horas, tudo pode mudar.
É como Cormac McCarthy diz em Meridiano de Sangue: “Homens de Deus e Homens de Guerra têm estranhas afinidades”. Cito também um professor (Giraffales) desta vez: “Somente os idiotas têm certeza do que dizem”. E essa é minha única certeza. Feliz dia do Saci.
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