
Sábado de sol em Ubatuba. A família desce a serra, paga a taxa ambiental, acha vaga com sorte e chega ao Itaguá. Na areia, a placa vermelha da Cetesb avisa que a água está imprópria para banho. O pai olha para as crianças, as crianças olham para o mar, e todo mundo volta para o carro.
A pergunta que ninguém faz: quanto custou para todos essa placa?
A gente sabe muito bem quanto uma praia aberta rende. A Secretaria de Turismo de Ubatuba projetou cerca de 4 milhões de visitantes entre dezembro e março, numa cidade de aproximadamente 98 mil moradores. Uma pesquisa mostrou que 68% dos turistas entrevistados destacam as praias entre os principais atrativos, e a maioria gasta entre 100 e 300 reais por dia, incluindo alimentação, hospedagem, passeios e outros serviços.
Faça uma conta simples. Se cada um desses 4 milhões de visitantes gastasse apenas 200 reais em um único dia, seriam 800 milhões de reais circulando na economia local em uma temporada. É uma simulação, claro, mas ajuda a entender o tamanho dessa economia. É dinheiro que paga o salário do garçom, o aluguel da pousada e o boleto do pescador que leva turista para passear.
Mas ninguém faz a outra conta. A da praia fechada.
E a praia imprópria não é rara. Em 2025, um ponto do Itaguá ficou impróprio em 51 das 52 semanas monitoradas pela Cetesb. Outro ponto da mesma praia, em 41 semanas. A foz do rio Itamambuca, em 34. São locais onde a água não fica imprópria apenas de vez em quando. Em alguns pontos, o problema é praticamente permanente.
Se o Itaguá atraísse só 1% do fluxo da temporada, seriam 40 mil visitas e uma movimentação potencial de 8 milhões de reais por verão. Em dez anos, mantendo as mesmas condições, seriam 80 milhões. Não significa que todo esse dinheiro seja perdido com a poluição, mas mostra o tamanho da economia que pode ser afetada. E essa conta ainda deixa de fora o turista que vai embora decepcionado e escolhe outro destino no ano seguinte, o imóvel que perde valor e os possíveis atendimentos no posto de saúde depois de um mergulho em água contaminada.
Alguém vai dizer que o turista simplesmente muda de praia. Em parte, sim, e para o município a perda líquida é menor. Mas pergunte ao dono do quiosque da orla do Itaguá se ele sente a diferença. Para ele, a perda pode ser significativa.
Boa parte da poluição que compromete nossas praias começa muito antes de chegar ao mar. Esgoto sem tratamento, ocupação irregular, chuva que carrega contaminantes para os rios e suas desembocaduras. Por isso, a conversa sobre balneabilidade não pode ficar só na planilha sanitária. Ela precisa entrar na planilha econômica.
Enquanto a bandeira vermelha for tratada apenas como dado da Cetesb, vai continuar sendo assunto de laboratório. No dia em que virar número no orçamento da prefeitura e no caixa da associação comercial, vira prioridade. Tratar o rio deixa de ser apenas despesa e passa a ser um investimento cujo retorno também precisa ser medido na economia local. ESG, no fundo, é isso. Ambiental é preservar a qualidade das águas, proteger os ecossistemas e evitar doenças causadas pela poluição. Social é proteger as pessoas e toda uma cadeia econômica que depende do turismo para sobreviver. Governança é investir em saneamento, saúde pública e desenvolvimento sustentável.
É entender que o custo de uma água contaminada vai muito além do que aparece na nota fiscal.
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