
Seis da manhã, ruas da cidade. Vários grupos de pessoas de camisetas coloridas se alongam, riem, tiram fotos e saem em bloco pela pista. Não é treino de atleta. É encontro marcado. Você conhece alguém que entrou num clube de corrida? Arrisco dizer que sim.
A corrida de rua ganhou uma dimensão que ultrapassa o exercício. Segundo o Strava, a participação em clubes de corrida cresceu 59% em 2024. Inclusive, entre os entrevistados da geração Z, um em cada cinco saiu com alguém que conheceu por meio de atividade física. A pista também virou lugar de encontro.
E agora a pergunta: qual é o seu pace? Saúde, comunidade, gente se conhecendo fora da tela. Há muito para celebrar. Mas, quando esse movimento se transforma em um grande negócio, organizadores, patrocinadores e marcas precisam assumir responsabilidades. E o ESG com isso? Tudo!!
Na esfera ambiental, depois de uma prova, os copos espalhados pelo chão chamam atenção. São a parte mais visível de uma conta que inclui camisetas, embalagens, medalhas, deslocamentos e tênis. Um estudo ligado ao MIT, publicado em 2013, estimou que um par de tênis de corrida sintético analisado gerava cerca de 14 quilos de CO₂ equivalente ao longo de seu ciclo de vida.
O valor varia conforme o produto, mas lembra que o impacto começa antes da largada. Algumas alternativas já podem ser vistas por aí. Em 2019, a Maratona de Londres testou mais de 30 mil cápsulas comestíveis feitas de algas para oferecer bebida aos corredores. Apesar de não ter sido um completo sucesso, já mostra uma tentativa e preocupação sobre o desafio. Pois reduzir itens desnecessários nos kits e organizar a destinação dos resíduos também merece espaço no planejamento.
Leia mais: Por que os bancos estão olhando para o céu?
Na dimensão social, correr pode aproximar pessoas e ocupar espaços públicos. Mas dizer que basta um tênis e uma rua ignora uma pergunta importante. Quem tem uma rua segura, iluminada e tempo disponível para treinar? Inscrições acessíveis, projetos em escolas públicas e apoio a grupos de periferia podem ampliar o alcance desse movimento. Inclusão precisa aparecer nas oportunidades oferecidas. Poderíamos ver mais empresas que apoiam e incentivam grupos de corrida para fortalecerem suas equipes e o bem-estar em geral.
Já a governança conecta essas escolhas. Quem define as metas ambientais? Quem verifica a destinação dos resíduos? Os resultados ficam disponíveis depois da prova? Patrocinadores podem cobrar essas respostas antes de associar suas marcas ao evento.
Como triatleta amador, conheço a alegria de cruzar uma linha de chegada. Também vejo o valor dos encontros que o esporte proporciona. Essa energia pode melhorar a cidade, aproximar pessoas e abrir oportunidades. Para isso, o cuidado precisa continuar quando o último corredor passar.
Quando a medalha vai para casa. O que fica para a cidade?