
Ao longo da minha vida, os livros me ensinaram que conhecer o mundo é também aprender a olhar para dentro de nós mesmos. Encontrei na literatura perguntas que ainda não sabia formular, personagens que me ajudaram a compreender melhor as pessoas e histórias que permaneceram comigo muito depois de encerrada a leitura. Minha trajetória pelo jornalismo, pela educação, pela escrita e pela produção cultural aprofundou essa relação. Hoje, como escritor e presidente da Academia Joseense de Letras, continuo descobrindo nos livros uma das expressões mais profundas da inteligência, da sensibilidade e da experiência humana.
Celebrar o Dia Nacional do Livro, em 29 de outubro, é uma oportunidade de refletir sobre o lugar da leitura em nossa vida e sobre o país que podemos construir quando reconhecemos a importância dos livros. Não se trata apenas de homenagear escritores consagrados ou reverenciar obras que atravessaram gerações. Trata-se de compreender que a literatura participa da nossa formação, amplia nossa percepção da realidade e nos aproxima de experiências que, de outra maneira, talvez jamais conhecêssemos.
Machado de Assis é um desses autores aos quais sempre podemos retornar. Em “Dom Casmurro”, constrói uma narrativa que permanece aberta à interpretação e nos leva a questionar a memória, as certezas e as versões que elaboramos sobre os outros. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a ironia desvela as vaidades e os privilégios de uma sociedade cujas contradições ainda reconhecemos no Brasil contemporâneo. Machado compreendeu como poucos as ambiguidades da natureza humana. Sua obra permanece atual porque os conflitos que investigou não desapareceram com o tempo.
James Joyce expandiu as possibilidades da narrativa ao explorar os movimentos da consciência e a complexidade do pensamento. Henry James fez das relações humanas um campo de observação minuciosa, atento às intenções, aos conflitos e aos sentimentos que raramente se revelam por inteiro. Clarice Lispector, por sua vez, possui uma maneira singular de nos conduzir às regiões mais íntimas e difíceis de traduzir da natureza humana. Sua escrita não oferece respostas fáceis. Ao contrário, coloca-nos diante de questões que, muitas vezes, preferiríamos deixar intocadas.
Monteiro Lobato ocupa um lugar importante na formação de leitores brasileiros, sobretudo por sua contribuição à literatura infantil. Reconhecer esse legado não significa ignorar os preconceitos presentes em sua obra, que precisam ser examinados com rigor e responsabilidade histórica. Jorge Amado, com personagens profundamente vinculados à realidade brasileira, transformou os conflitos sociais, os afetos e as contradições do país em matéria literária. Cada um, à sua maneira, contribuiu para a formação do imaginário de gerações de leitores.
A literatura, entretanto, não vive apenas da memória dos grandes autores. Continua sendo escrita, questionada e renovada. Itamar Vieira Junior, em “Torto Arado”, traz para o centro da narrativa experiências marcadas pela ancestralidade, pela luta pela terra e pelas desigualdades que atravessam a história brasileira. Socorro Acioli demonstra a força da imaginação ao estabelecer diálogos entre a tradição popular e o universo do extraordinário. Jefferson Tenório, em “O Avesso da Pele”, enfrenta o racismo e suas consequências na intimidade de uma família, revelando como a violência social alcança a identidade, os afetos e as relações entre gerações.
A leitura desses autores contemporâneos reafirma uma convicção que considero essencial: a literatura brasileira se torna mais rica quando diferentes experiências encontram espaço para se expressar. Não precisamos escolher entre Machado de Assis e Jefferson Tenório, entre Clarice Lispector e Socorro Acioli. Os livros dialogam entre si, mesmo quando seus autores estão separados por séculos, origens e concepções de mundo. Cada nova voz amplia nossa compreensão das anteriores e acrescenta outras perspectivas àquilo que entendemos por literatura.
Minha experiência com a literatura infantil tornou essa questão particularmente significativa. Escrever para crianças exige imaginação, delicadeza e respeito pela inteligência de quem começa a descobrir o mundo. Um livro infantil não precisa oferecer respostas prontas nem transformar cada história numa lição de comportamento. Precisa despertar a curiosidade, provocar emoções e permitir que a criança encontre na ficção um espaço para suas próprias descobertas.
Estou convencido de que o acesso à leitura não pode depender da condição econômica de uma família ou do lugar onde uma criança nasceu. Uma biblioteca pública, um professor dedicado ou um livro recebido no momento certo podem abrir horizontes antes inimagináveis. Defender a literatura significa, portanto, defender políticas públicas de acesso ao livro, escolas com bibliotecas atuantes, valorização dos educadores e oportunidades para que novos escritores publiquem suas obras e encontrem seus leitores.
Na presidência da Academia Joseense de Letras, compreendo a tradição como uma responsabilidade, não como um ponto de chegada. Preservar a memória dos escritores é fundamental, mas uma instituição literária também precisa reconhecer os autores do presente, estimular quem está começando e aproximar a produção cultural da comunidade. Uma academia que deixa de dialogar com seu tempo corre o risco de transformar a cultura em mera cerimônia, quando deveria fazer dela uma experiência viva, compartilhada e cotidiana.
O jornalismo me ensinou a observar os acontecimentos e a reconhecer a importância dos fatos. A literatura me permitiu aprofundar o olhar sobre as experiências humanas que existem por trás deles. Uma notícia pode registrar a dimensão de um problema; um romance pode nos aproximar do sentimento de quem o enfrenta. São formas distintas de compreender a realidade, mas ambas exigem rigor, atenção às palavras e responsabilidade com aquilo que comunicamos.
Com o passar dos anos, aprendi a valorizar ainda mais o tempo dedicado à leitura. Num cotidiano em que tantas coisas disputam nossa atenção, permanecer algumas horas com um livro é também uma escolha. Significa acompanhar o ritmo de uma narrativa, permitir que um pensamento amadureça e aceitar que nem toda pergunta exige uma resposta imediata. Há livros que nos acompanham desde a juventude. Outros só revelam sua verdadeira dimensão quando a experiência de vida nos permite compreender o que antes passava despercebido.
Neste Dia Nacional do Livro, penso nos autores que contribuíram para formar minha visão de mundo, nos escritores contemporâneos que renovam a literatura brasileira e naqueles que continuam escrevendo longe dos grandes circuitos editoriais. Penso nos professores que apresentam uma obra aos alunos, nos bibliotecários que conhecem o valor de uma boa indicação e nos leitores que compartilham um livro porque desejam proporcionar a outras pessoas a mesma experiência que os tocou.
Continuo escrevendo porque ainda tenho histórias para contar. Continuo lendo porque sei que minhas experiências, por mais numerosas que sejam, não bastam para compreender toda a complexidade humana. E continuo trabalhando pela literatura porque acredito que uma sociedade precisa de memória, conhecimento e imaginação para não se conformar com aquilo que parece imutável.
Talvez esse seja um dos maiores privilégios de quem lê ao longo da vida: compreender que o conhecimento não nos torna donos das respostas, mas nos prepara para formular perguntas melhores. A cada livro, encontramos outros caminhos, outras consciências e novas possibilidades de interpretar a existência.
Aos 49 anos, preservo a curiosidade de quem sabe que ainda há muito a descobrir. Não vejo nisso uma lacuna, mas uma das maiores riquezas que a literatura me proporciona. Há sempre um autor à espera de ser descoberto, uma obra que ainda desconhecemos e uma página capaz de iluminar aquilo que julgávamos compreender.
A literatura é a viagem que não termina porque sua verdadeira dimensão não está nas páginas percorridas, mas naquilo que cada leitura transforma em nós. O livro pode voltar à estante, mas suas ideias continuam a nos acompanhar, entrelaçadas às nossas lembranças, escolhas e convicções. Talvez seja essa a razão pela qual, depois de tantos anos dedicados às palavras, eu ainda encontre no gesto de abrir um livro a mesma disposição de quem parte para um lugar desconhecido.
Fabrício Correia é escritor, jornalista, historiador e professor universitário. Preside a Academia Joseense de Letras, é membro da União Brasileira dos Escritores e coordena o projeto “São José, Cidade Leitora”.