
A morte tem uma vantagem indecente sobre todos nós: conhece o resultado antes mesmo de começar a partida. Podemos mudar de cidade, de profissão, de amores e de convicções, mas jamais conseguiremos alterar aquela circunstância que nos acompanha desde o nascimento. Um dia morreremos. O curioso é que, sabendo disso, continuamos comprando passagens, escolhendo livros, plantando árvores e nos apaixonando com uma disposição quase comovente para acreditar no futuro.
A pergunta me acompanha desde que ouvi uma conversa entre Antônio Abujamra e Rubem Alves no programa “Provocações”. A vida seria uma causa perdida? Rubem foi um dos grandes amigos que a existência me ofereceu, daqueles que nos ajudam a chegar até nós mesmos. Sua partida jamais encerrou nossa conversa. Continuo encontrando sua presença nos livros, nas lembranças e na maneira como observo o mundo. Algumas amizades sobrevivem à morte porque se incorporam tão profundamente à nossa formação que já não conseguimos distinguir o que aprendemos daquilo que nos tornamos.
Talvez o equívoco esteja em considerar a existência uma competição contra o desaparecimento. Passamos décadas acumulando conquistas, títulos e reconhecimentos, como se alguém fosse examinar nossos resultados e decidir se merecemos uma prorrogação. A morte, indiferente a currículos e patrimônios, desmonta essa contabilidade com uma simplicidade desconcertante.
Quando somos crianças, o tempo parece uma propriedade particular. As férias demoram a chegar, os aniversários custam uma eternidade e os adultos nos parecem habitantes de um território imune ao desaparecimento. Depois começamos a contar os anos pela ausência das pessoas. Uma cadeira permanece vazia durante o almoço, determinado número deixa de aparecer no telefone, uma voz sobrevive numa gravação. Descobrimos que envelhecer também significa aprender a amar quem já partiu.
O que mais me impressiona na morte é sua capacidade de transformar o banal em precioso. Ninguém imagina, durante uma conversa qualquer, que determinada frase poderá ser a última. Despedimo-nos com a naturalidade de quem espera continuar o assunto na semana seguinte, adiamos visitas, prometemos telefonar. Depois, diante da impossibilidade de recuperar aqueles minutos, daríamos quase tudo por uma tarde comum.
A saudade conhece uma geografia própria. Mora em objetos que perderam sua utilidade, em ruas pelas quais evitamos passar, em músicas que interrompemos antes do final. Às vezes aparece diante de uma xícara, de uma palavra, de um gesto que alguém reproduz involuntariamente. Recordar uma pessoa amada significa reencontrar, por alguns instantes, a possibilidade de sua companhia.
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Durante muito tempo imaginei que amadurecer significasse compreender melhor a vida. Hoje suspeito que amadurecer consiste em aceitar o quanto permanecerá incompreensível. Podemos estudar filosofia, literatura, história e atravessar experiências extraordinárias, mas continuaremos incapazes de explicar por que certas pessoas nos encontram ou por que uma felicidade aparentemente insignificante permanece conosco durante décadas.
Gastamos anos defendendo posições que amanhã já não terão significado, discutindo com pessoas cuja opinião pouco interfere em nossa felicidade e acumulando obrigações que nos afastam justamente daquilo que desejávamos preservar. Sabemos que nosso tempo é limitado, mas conseguimos desperdiçar uma tarde inteira por causa de uma contrariedade insignificante.
A felicidade costuma contrariar nossas previsões. Podemos organizar uma viagem durante meses e descobrir que sua lembrança mais preciosa será uma conversa inesperada numa estação. Podemos preparar uma celebração grandiosa e recordar, muitos anos depois, apenas o instante em que alguém nos abraçou na cozinha.
Talvez seja essa a verdadeira aventura: amar sabendo que podemos perder, criar sabendo que nossas obras poderão ser esquecidas, ensinar sem conhecer o destino de nossos ensinamentos, fazer amigos mesmo compreendendo que um dia precisaremos nos despedir.
Um dia, alguém pronunciará nosso nome pela última vez. Nossos livros passarão a outras mãos, nossas fotografias perderão a identificação e os lugares onde fomos felizes receberão pessoas desconhecidas. O mundo continuará funcionando, as crianças continuarão brincando, os namorados marcarão encontros e alguém reclamará da chuva numa manhã de segunda-feira.
A vida é uma causa perdida? Se esperamos derrotar a morte, começamos uma disputa cujo resultado já foi decidido. Mas ninguém considera inútil uma viagem porque precisa regressar, nem lamenta ter ouvido uma bela composição porque a música terminou.
Penso nas duas datas separadas por um pequeno traço numa lápide. Para quem passa diante dela, aquele sinal representa quase nada. Para quem viveu entre aqueles números, coube ali um universo inteiro.
Não sei quanto tempo ainda me pertence. Sei apenas que continuo cercado por pessoas que amo, por lembranças que me sustentam e por uma quantidade imensa de coisas que ainda despertam minha curiosidade.
A morte ficará com a última palavra. Não vejo motivo para entregar-lhe também todas as anteriores.
Fabrício Correia é escritor, historiador e professor universitário. Integra a União Brasileira de Escritores e preside a Academia Joseense de Letras.