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    A virada do Brasil

    O que fez Lula vencer uma eleição que parecia perdida e o que as urnas revelam sobre a democracia, a soberania e a vontade popular
    Autor: Fabrício Correia26 de outubro de 2026Nenhum comentário9 Minutos de Leitura
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    A virada do Brasil
    (Créditos: Ricardo Stuckert)

    A história política brasileira acaba de registrar um daqueles acontecimentos que desafiam a aparente previsibilidade das eleições e obrigam analistas a reconsiderar suas certezas. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou seu quarto mandato presidencial depois de chegar ao segundo turno em desvantagem, enfrentar pesquisas que indicavam a possibilidade de derrota e assistir à reorganização de uma sociedade que, nas últimas três semanas, voltou a discutir intensamente os rumos do país. A vitória, com aproximadamente 51,78% dos votos válidos, diante dos 48,22% de Flávio Bolsonaro (PL), não pode ser compreendida apenas pela capacidade de reação de uma candidatura. O resultado nasceu de uma combinação de circunstâncias econômicas, movimentos sociais, estratégias de comunicação e mudanças no comportamento eleitoral que merecem exame rigoroso.

    No primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia recebido 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançara 45,16%. A diferença de 1,87 ponto percentual parecia pequena, mas representava uma vantagem considerável em uma disputa marcada por índices elevados de rejeição e por um eleitorado intensamente polarizado. Três semanas depois, a distância havia mudado de direção. Lula ampliou sua participação nos votos válidos em 6,62 pontos percentuais, enquanto o adversário avançou 1,19 ponto. A alteração líquida de 5,43 pontos na margem entre os candidatos ajuda a dimensionar a transformação ocorrida durante o período.

    A primeira chave para compreender esse movimento está na mudança de natureza do debate eleitoral. A campanha de Lula procurou ampliar o discurso para além da confrontação direta com o bolsonarismo, recuperando temas relacionados ao salário mínimo, à proteção social, ao financiamento dos serviços públicos, à segurança e à soberania nacional. A estratégia dialogava com preocupações materiais de uma população para a qual a política continua sendo, antes de qualquer elaboração ideológica, uma questão de emprego, renda, alimentação, transporte e perspectivas de futuro.

    O comportamento de segmentos específicos do eleitorado oferece indícios importantes dessa recuperação. Pesquisas Datafolha registraram crescimento da intenção de voto em Lula de 43% para 52% entre os jovens. Entre beneficiários do Bolsa Família, a preferência passou de 59% para 63%. Na população fora da força de trabalho, avançou de 51% para 54%. Não seria correto atribuir a esses movimentos, isoladamente, a responsabilidade pelo resultado, mas eles ajudam a identificar onde a candidatura encontrou espaço para ampliar seu apoio.

    A distribuição social e regional das preferências também merece atenção. No levantamento realizado entre 20 e 22 de outubro, Lula reunia 54% das intenções de voto entre pessoas com renda de até dois salários mínimos e 65% no Nordeste. Entre os católicos, alcançava 55%. Flávio Bolsonaro conservava vantagens expressivas entre evangélicos, com 69%, e na região Sul, onde registrava 58%. Os números revelam um país cuja divisão política atravessa condições econômicas, pertencimentos religiosos, experiências regionais e distintas percepções sobre o papel do Estado.

    Uma outra boa leitura: De virada, Lula faz história

    A comunicação digital desempenhou papel particularmente relevante nessa reta final. O canal de WhatsApp denominado “Exército do Lula”, impulsionado pelo deputado André Janones, passou de aproximadamente 50 mil participantes no primeiro turno para mais de 10,6 milhões na véspera da votação decisiva. O crescimento não permite calcular quantos eleitores mudaram de posição em consequência dessa mobilização, mas demonstra a capacidade adquirida pela campanha de distribuir mensagens, organizar apoiadores e disputar atenção em um ambiente no qual a circulação de informações acontece de maneira permanente e descentralizada.

    A experiência brasileira confirma uma transformação mais ampla da comunicação política. A televisão conserva influência, os debates permanecem relevantes e os grandes veículos continuam participando da formação da opinião pública, mas a circulação cotidiana de conteúdos por aplicativos e plataformas digitais tornou-se parte inseparável das campanhas. Nesse território, a disputa não se limita ao convencimento. Envolve a capacidade de manter eleitores mobilizados, estimular o comparecimento e estabelecer vínculos de identificação coletiva.

    As ruas ofereceram outra dimensão desse fenômeno. Na véspera do segundo turno, manifestações favoráveis a Lula ocorreram em pelo menos 58 cidades brasileiras. Em São Paulo, a mobilização na avenida Paulista ocupou uma extensão estimada em 14 quarteirões. A presença de milhares de pessoas nos espaços públicos conferiu visibilidade à candidatura e expressou uma disposição de participação que ultrapassou os instrumentos tradicionais da propaganda eleitoral.

    Seria equivocado, entretanto, confundir o tamanho das manifestações com uma medida direta de preferência eleitoral. Flávio Bolsonaro também reuniu multidões e preservou uma base numerosa, como demonstram os quase 60 milhões de votos recebidos. A eleição não produziu o desaparecimento de um campo político, mas uma alteração suficiente na distribuição das preferências para modificar o vencedor.

    Um dos dados mais importantes encontra-se na participação eleitoral. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo. A redução de 1,87 ponto percentual indica que uma parcela maior dos brasileiros compareceu às urnas no momento decisivo. Ainda será necessário examinar os microdados por município, faixa etária e seção eleitoral para compreender com precisão o comportamento desses votantes adicionais. O aumento do comparecimento, contudo, constitui uma variável incontornável para qualquer investigação séria sobre a virada.

    Após vitória, Lula diz que não tem mais adversários e promete governar para todos os 215 milhões de brasileiros

    A diferença entre as pesquisas finais e a apuração também deverá ocupar pesquisadores. Na véspera da eleição, o Datafolha registrava 51% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro e 49% para Lula, em situação de empate técnico. O resultado terminou invertido, com vantagem superior a três pontos percentuais para o presidente. A divergência pode envolver alterações tardias de preferência, diferenças entre o eleitorado entrevistado e aquele que efetivamente compareceu, além das limitações inerentes aos levantamentos amostrais. Nenhuma dessas possibilidades deve ser transformada em conclusão antes da análise metodológica correspondente.

    Existe, porém, uma dimensão dessa eleição que não cabe inteiramente nas tabelas. A disputa pela Presidência envolveu concepções distintas sobre a democracia brasileira, a relação entre Estado e sociedade, o papel das instituições e o lugar do país no cenário internacional. A defesa da Constituição e da soberania nacional integrou a comunicação de Lula, enquanto Flávio Bolsonaro procurou consolidar a oposição ao governo e apresentar uma alternativa política e administrativa.

    Seria intelectualmente imprudente afirmar que todos os eleitores de Lula votaram prioritariamente para defender a democracia ou que os apoiadores de Flávio Bolsonaro se orientaram por uma motivação única. A pesquisa Datafolha identificou que 81% dos eleitores de Lula declaravam escolhê-lo por considerá-lo a melhor opção, enquanto 13% afirmavam votar principalmente para derrotar o adversário. Entre os eleitores de Flávio, esses percentuais eram de 65% e 23%, respectivamente. O voto afirmativo e o voto de rejeição coexistiram nos dois campos, revelando uma sociedade mais complexa do que as interpretações partidárias costumam admitir.

    A geografia eleitoral confirma essa complexidade. No estado de São Paulo, Flávio Bolsonaro venceu com 53,85% dos votos válidos, enquanto Lula conquistou 55,5% na capital. A diferença entre metrópole e interior, somada às particularidades econômicas e culturais de cada região, impede que o comportamento nacional seja explicado por divisões territoriais simplificadas. O Brasil urbano não constitui um eleitorado homogêneo, assim como as populações do interior não compartilham necessariamente as mesmas expectativas políticas.

    A vitória de Lula recoloca a soberania popular no centro da discussão nacional. A legitimidade de um governo democrático nasce do voto, mas sua permanência institucional depende do respeito às regras constitucionais, da independência dos Poderes, da liberdade de imprensa e da garantia de que a oposição possa exercer plenamente suas funções. A maioria eleitoral autoriza o exercício do mandato, não a apropriação das instituições nem a supressão das divergências.

    Essa distinção adquire importância especial diante da dimensão do resultado. Os aproximadamente 48% de votos válidos recebidos por Flávio Bolsonaro representam uma parcela expressiva da sociedade brasileira. Seus interesses, reivindicações e preocupações continuarão presentes na vida nacional. Governar democraticamente significa reconhecer essa realidade sem abandonar o programa legitimado pelas urnas, construindo soluções públicas que possam ser examinadas, criticadas e aperfeiçoadas.

    Lula chega ao quarto mandato com uma experiência política singular e diante de dificuldades que nenhuma vitória eleitoral será capaz de eliminar. O enfrentamento da desigualdade, a estabilidade econômica, a recuperação da confiança institucional, a segurança pública e a melhoria dos serviços essenciais exigirão mais do que capacidade de mobilização. Será necessário transformar compromissos em resultados mensuráveis, estabelecer relações republicanas com o Congresso e preservar a autonomia das instituições responsáveis pela fiscalização do poder.

    A eleição de 2026 também oferece uma lição sobre os limites da previsibilidade política. Nenhuma pesquisa antecipa a vontade popular com exatidão, nenhuma vantagem inicial assegura uma vitória e nenhum movimento de campanha pode ser compreendido sem considerar a resposta efetiva dos cidadãos. Entre os dois turnos, milhões de brasileiros reafirmaram convicções, reconsideraram escolhas ou decidiram comparecer às urnas. O conjunto dessas decisões individuais produziu um resultado que contrariou as expectativas predominantes na reta final.

    O acontecimento merece ser estudado sem a precipitação dos vencedores nem o ressentimento dos derrotados. A democracia brasileira continua atravessada por antagonismos profundos, desigualdades históricas e dificuldades de representação. A eleição não dissolveu essas contradições. Apenas determinou, por meio do sufrágio, quem terá a responsabilidade de enfrentá-las nos próximos quatro anos.

    A grande questão que emerge da virada não é somente como Lula conseguiu recuperar uma eleição aparentemente desfavorável, mas o que o país fará com a experiência política que acaba de atravessar. A participação popular demonstrou sua capacidade de interferir nos acontecimentos, enquanto a proximidade dos resultados evidenciou a necessidade de convivência entre projetos divergentes.

    Lula venceu porque reuniu votos suficientes para transformar a desvantagem em maioria, em um processo marcado por mobilização social, reorganização comunicacional e mudanças identificáveis nas preferências eleitorais. As razões individuais dessa escolha permanecerão múltiplas, como devem ser em uma sociedade livre.

    A democracia brasileira não pertence ao presidente eleito, ao candidato derrotado ou aos partidos que os sustentam. Pertence aos cidadãos que exerceram o direito de escolher e que conservarão, durante todo o mandato, o direito de cobrar, discordar e participar.

    A história registrará a virada de outubro de 2026. Seu significado mais duradouro, entretanto, dependerá daquilo que acontecer depois da festa, quando a política retornar às escolas, aos hospitais, às fábricas, às periferias, ao campo e às casas onde a vida brasileira transcorre longe dos palanques. Porque uma eleição decide o poder. A democracia exige, todos os dias, que esse poder responda ao país.


    Sobre o autor: Fabricio Correia é escritor, historiador e analista político responsável pela agência “Conversa de Bastidores”. É integrante da Comissão de Tendências da ANER – Associação Nacional de Editores de Revistas.

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