
No sábado passado, estava com pessoas queridas por horas em um café. Daquelas pausas longas da vida. Café atrás de café.
Gente entrando, reuniões acontecendo, famílias conversando, notebooks abertos, risadas, pressa, encontros. Foi um período longo, e vi dezenas e dezenas de pessoas passando por ali.
Mas algo começou a me incomodar. Ou melhor… a ausência de algo.
Reparei que via muitas pessoas pretas trabalhando. Pouquíssimas consumindo. Na verdade, em todo o tempo em que ali fiquei, apenas um casal preto consumiu no café.
Quando comecei a prestar atenção de verdade, veio o choque silencioso.
Quantas pessoas pretas moram no meu condomínio?
Quantas frequentam os mesmos espaços?
Quantas ocupam cargos de liderança nas empresas?
Quantas estão nas universidades privadas?
Quantas estão sentadas à mesa… e não apenas servindo a mesa?
E foi impossível não pensar: será que naturalizamos uma segregação racial tão profunda que ela já nem chama mais atenção?
Não escrevo isso como especialista no tema. Inclusive, longe disso. Escrevo como alguém que começou a prestar atenção.
Já fazia algum tempo. Mas, naquele sábado, ficou pesado demais para ignorar.
Nos restaurantes.
Nos condomínios.
Nas universidades.
Nos aeroportos.
Nas mesas de decisão.
Nos espaços que aprendemos a chamar de “normais”.
Fui investigar mais a fundo e descobri que isso tem nome.
Chama-se racismo ambiental. Um conceito criado nos anos 80, nos Estados Unidos, para descrever as injustiças sociais e ambientais que recaem de forma desproporcional sobre populações pretas e vulneráveis. No Brasil, ele aparece nas periferias sem saneamento, nas comunidades que concentram enchentes, nos bairros sem estrutura urbana digna. (Onde podem habitar, obviamente, pessoas de outras raças, mas predominantemente afrodescendentes.)
Mas aparece também em lugares menos óbvios.
Naquele café de sábado, por exemplo.
E os números mostram que talvez essa sensação não seja apenas impressão.
Segundo o IBGE, pessoas pretas e pardas representam cerca de 56% da população brasileira. Ainda assim, seguem sendo minoria nos espaços de maior renda e liderança. Dados da PNAD Contínua mostram que trabalhadores brancos recebem, em média, cerca de 60% a mais do que trabalhadores pretos e pardos. Nos cargos de gerência e direção, a presença de pessoas pretas ainda é proporcionalmente muito menor.
No ensino superior houve avanço real, e isso precisa ser reconhecido. Entre 2000 e 2022, o percentual de pessoas pretas com diploma universitário cresceu mais de cinco vezes. Mas, em 2022, a taxa de conclusão entre brancos ainda era de 25,8%, mais do que o dobro dos 12% registrados entre pretos e pardos. E, nos cursos de maior prestígio, como Medicina, 75,5% dos formados eram brancos. Apenas 2,8% eram pretos.
Talvez o ponto mais delicado seja justamente este: a desigualdade deixou de aparecer apenas nos números. Ela passou a aparecer nas ausências que aprendemos a não perceber.
Alguém vai lembrar de uma exceção. Um nome, um cargo, uma conquista real e legítima. Mas exceção confirma regra. Ponto fora da curva não move a curva.
E, enquanto eu ficava ali observando, pensei em tudo o que celebramos como progresso.
Falamos muito sobre cidades inteligentes, inovação, tecnologia e desenvolvimento. Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante: desenvolvimento para quem?
Porque sociedades verdadeiramente modernas não podem medir seus sucessos apenas pelo PIB, pelos prédios ou pelos investimentos que atraem.
Elas também precisam ser medidas por quem consegue ocupar seus espaços com dignidade, oportunidade e prosperidade.
E talvez o “S” do ESG se faça tão importante exatamente aí.
Não em discursos prontos.
Não em campanhas bonitas.
Mas na coragem de perceber quem ainda ficou do lado de fora do pertencimento.
Porque uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não é aquela em que alguns conseguem subir.
É aquela em que mais pessoas conseguem entrar pela mesma porta.
Fica a reflexão:
quantas pessoas pretas você encontrou hoje… sentadas à mesa e não apenas servindo-a?
Veja também: Dois cafés, ESG e a conta: Orçamentação Verde no Brasil