
Essa semana, numa sala de aula de uma importante faculdade de São Paulo, um comentário direcionado ao professor, de que o conteúdo apresentado era, no fundo, a base do ESG, mudou o clima da aula. O professor, doutor, parou e emendou: “Aqui não falo muito sobre ESG. Isso é modinha, é pauta ambiental. Empresas no mundo inteiro estão abandonando a sigla. Inclusive, uma grande empresa da aviação mundial já a abandonou, e os Estados Unidos já a enterraram.”
Penso no perigo de ouvir isso de quem forma futuros gestores profissionais. A fala não teve embasamento técnico algum, foi puramente ideológica e revelou desconhecimento do próprio tema que criticava.
Vamos aos fatos, porque ESG se defende com dado, não com opinião.
Primeiro, a confusão de origem. O professor misturou ESG com DEI, diversidade, equidade e inclusão. São coisas distintas. DEI é um aspecto dentro do pilar Social. ESG são três pilares: ambiental, social e governança. Reduzir tudo isso à “pauta ambiental” é como dizer que uma casa é só o telhado, esquecendo alicerce e parede. Quem confunde a parte com o todo não entendeu o todo.
Segundo, o suposto abandono. A tal gigante da aviação mundial mantém metas públicas de neutralidade de carbono nas operações até 2040, energia 100% renovável até 2030 e um Comitê de Pessoas e ESG no Conselho de Administração. Em 2024, chegou a 80% de energia renovável. Isso não é abandono, é execução.
Terceiro, os Estados Unidos. Aqui mora o equívoco mais comum. Existe “backlash” político, sim, mas os números contam outra história. Um estudo da EcoVadis com 400 executivos mostrou que 87% das empresas americanas mantiveram ou aumentaram investimentos em sustentabilidade em 2025.
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Uma pesquisa da Harvard Business Review com 75 empresas globais achou que apenas 13% recuaram, enquanto 85% mantiveram ou aceleraram. A Deloitte, ouvindo 2.100 executivos, encontrou 83% aumentando investimento ano contra ano.
O que mudou não foi a prática, foi a conversa. O fenômeno tem nome: “greenhushing”. As empresas seguem fazendo, mas falam menos, com medo de processo e de politização. O The Conference Board mostrou que 87% das empresas do S&P 500 divulgam metas climáticas, mesmo que só 25% ainda usem a sigla “ESG” no título do relatório. A palavra está sumindo das capas. O trabalho, não.
E é aqui que o professor acertou sem querer: a sigla envelheceu. Virou para-raios ideológico. Mas confundir o desgaste do rótulo com a morte da prática é erro grave, ainda mais numa cadeira que forma quem vai gerir capital, negócios, risco, etc.
ESG bem estruturado não é bandeira política. É gestão de risco. Empresa com os três pilares sólidos resiste melhor à crise financeira, sanitária e reputacional. Isso não é modinha. É foco estratégico.
O perigo maior não é a sigla ESG acabar. É formar gente acreditando que acabou.