
A frase da semana na minha cabeça foi escrita pelo editorial do Globo, mas poderia estar num boleto: a conta da irresponsabilidade já chegou. E chegou mesmo.
Enquanto escrevo isto, uma série de propostas no Congresso busca reduzir, recategorizar ou reverter a proteção de Unidades de Conservação no Brasil. O movimento tem até nome técnico: PADDD, sigla em inglês para processos de rebaixamento de categoria, redução de limites ou revogação de áreas protegidas.
Deixa eu traduzir o que está em jogo.
Na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, um projeto aprovado pela Câmara e pelo Senado prevê transformar cerca de 486 mil hectares da Flona em Área de Proteção Ambiental, categoria com regras menos restritivas. É aproximadamente 37% de uma floresta nacional de 1,3 milhão de hectares. No Pantanal, tenta-se sustar a ampliação da Estação Ecológica de Taiamã, importante refúgio da onça-pintada, cuja expansão acrescentou quase 57 mil hectares à área protegida. Em Santa Catarina, outro projeto pretende retirar mais de 30 mil hectares da porção terrestre da APA da Baleia Franca.
Não são apenas hectares num mapa. São pedaços da infraestrutura natural do Brasil.
E aqui está o ponto que, como alguém que trabalha com regeneração de corpos hídricos todos os dias, não canso de repetir: Unidade de Conservação (UC) não é enfeite. É infraestrutura.
UC protege mananciais, conserva biodiversidade, reduz a pressão sobre a vegetação nativa e mantém serviços ecossistêmicos dos quais dependem cidades, indústrias e o próprio agronegócio. Afrouxar proteção ambiental sem critério técnico pode significar desmontar justamente o amortecimento natural que reduz nossa vulnerabilidade aos extremos climáticos.
Vamos à conta de verdade, porque ESG sem número é conversa de palco.
As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024 provocaram efeitos estimados em R$ 88,9 bilhões, segundo estudo conjunto do BID, CEPAL e Grupo Banco Mundial. Desse total, 69%, cerca de R$ 61 bilhões, recaíram sobre o setor produtivo. O mesmo estudo estima que a resposta pública tempestiva evitou uma perda adicional equivalente a 1,1 ponto percentual do PIB gaúcho.
Prevenção custa. Reconstrução custa muito mais.
O que me incomoda não é a divergência legítima sobre desenvolvimento. Ela precisa existir. O problema é insistirmos na falsa escolha entre conservar e produzir. Um país ambientalmente vulnerável também tem agricultura mais exposta, infraestrutura mais frágil, seguros mais caros e cadeias produtivas menos competitivas.
E essa discussão já chegou ao comércio internacional. A regulamentação europeia contra o desmatamento, a EUDR, exigirá para produtos abrangidos como soja, café, cacau, madeira e produtos ligados à pecuária, comprovação de que não estejam associados ao desmatamento. Não é apenas ideologia ambiental. É acesso a mercado.
A conta da irresponsabilidade já chegou. A pergunta é se continuaremos pagando no débito automático, desastre após desastre.
Porque, no fim, ESG não é apenas sobre salvar a baleia-franca ou a onça-pintada, embora eu quisesse que isso fosse suficiente.
É também sobre não gastar bilhões reconstruindo aquilo que poderíamos, simplesmente, ter deixado em pé.
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