
Semana passada um amigo comentou que foi comprar o pacote de café de sempre. Segundo ele, pegou o pacote da prateleira quase no automático, até olhar o preço.
— Será que está certo isso aqui? — indagou em voz alta.
Um atendente riu.
— Senhor, isso não é erro de etiqueta. O café está caro mesmo!
Poderia ser uma conversa qualquer e simples. Mas existe uma história bem maior por trás daquela etiqueta. Talvez poucas coisas expliquem tão bem a relação entre meio ambiente, economia e a nossa vida cotidiana quanto uma xícara de café.
Em 2025, a inflação oficial brasileira foi de 4,26%. O café moído? Subiu 35,65%, segundo o IBGE. Quase nove vezes a inflação do país. E há um detalhe importante: essa escalada vinha desde janeiro de 2024.
Para entender o que aconteceu, precisamos sair do supermercado e voltar para o campo.
O café é uma cultura sensível às condições climáticas. Distribuição das chuvas, períodos de seca, temperatura e geadas podem interferir na floração, no desenvolvimento dos frutos, na produtividade e na qualidade.
E agora surge uma aparente contradição.
Depois de anos de oferta mais apertada, a produção brasileira está reagindo. A Conab estima 66,7 milhões de sacas de 60 kg em 2026, aumento de 18% sobre 2025. O avanço é explicado principalmente pela bienalidade positiva do arábica e por condições climáticas mais favoráveis.
Minas Gerais é um ótimo exemplo. A estimativa é de 33,4 milhões de sacas, crescimento de 29,8% em relação a 2025.
Então, se estamos produzindo mais, por que ainda temos a sensação de que o café está tão caro?
Porque estamos olhando para dois momentos diferentes da mesma história.
O preço que encontramos hoje carrega parte dos efeitos de um período anterior de oferta restrita e estoques baixos. Ao mesmo tempo, a nova safra já começa a mudar esse cenário. Em agosto de 2026, o preço do café em pó caiu em 23 das 27 capitais brasileiras pesquisadas pela Conab e pelo Dieese.
No mercado mundial existe outra peça importante desse quebra-cabeça.
O USDA estima produção recorde de 178,8 milhões de sacas na safra mundial 2025/26 e consumo também recorde, de 173,9 milhões. Mesmo assim, os estoques finais são projetados em apenas 20,1 milhões de sacas, no quinto ano consecutivo de redução.
Ou seja, existe mais café sendo produzido, mas o mercado ainda opera com um colchão de segurança relativamente pequeno.
E é justamente aqui que ESG deixa de ser uma sigla de relatório corporativo e entra na nossa cozinha.
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Está no solo capaz de armazenar água. Na chuva que precisa chegar no período adequado. Na gestão hídrica da propriedade. Na capacidade do produtor de adaptar sua lavoura. E também na resiliência de uma cadeia que começa no campo e termina na padaria da esquina.
E mais, o preço do café depende do clima. Mas oferta, demanda, estoques, câmbio, custos, logística e mercado internacional também entram nessa conta. Portanto, há aspectos de Meio Ambiente, Sociais e de Governança que, se ignorados, seriam um erro grave.
Talvez aquele pacote caro na prateleira seja uma pequena aula de economia e ESG.
Da próxima vez que o cafezinho parecer caro demais, vale lembrar que aquela xícara começou sua história meses antes, numa lavoura onde chuva, temperatura, solo, decisões econômicas e trabalho humano precisaram se encontrar.
No fim, talvez ESG seja muito mais simples de entender do que parece.
Às vezes, ele cabe dentro de uma xícara de café.