
Alguns anos atrás escrevi aqui que a nuvem tinha sede. Na época, parecia provocação de colunista tentando explicar que aquilo que chamamos de “nuvem” está, na verdade, bem aqui no chão, prédios, servidores, energia e água.
Hoje, o assunto chegou às licenças ambientais, audiências públicas e discussões sobre segurança hídrica.
No Ceará, uma autorização para uso de até 144 mil litros de água por dia por um data center em Caucaia, município marcado por períodos de estiagem, provocou questionamentos sobre os impactos desse novo tipo de infraestrutura.
Pronto. O que parecia uma discussão sobre tecnologia virou uma discussão sobre água. E eu gosto de números. Então vamos a eles.
Estimativas atribuídas à Agência Internacional de Energia apontam que os data centers consomem globalmente cerca de 560 bilhões de litros de água por ano. Até 2030, esse volume pode chegar a 1,2 trilhão de litros, impulsionado, entre outros fatores, pela expansão da inteligência artificial.
Aqui perto, a dimensão do problema fica ainda mais concreta.
Um estudo publicado este ano na Cambridge Prisms: Water estimou em 16,1 milhões de metros cúbicos por ano a pegada hídrica do cluster de data centers da região metropolitana de São Paulo, volume comparável à necessidade de mais de 100 mil residências.
E há um detalhe fascinante, mais de 46% dessa água é “invisível”. É a chamada água virtual, associada principalmente à geração da eletricidade que mantém servidores funcionando 24 horas por dia.
Mas há uma parte boa nessa história.
O Brasil começa a colocar eficiência hídrica na regulamentação do setor. O REDATA estabelece, para os empreendimentos beneficiados, Índice de Eficiência Hídrica o WUE igual ou inferior a 0,05 litro por kWh.
No Pecém, no Ceará, outro grande projeto afirma que utilizará sistema de refrigeração em circuito fechado e consumirá menos de 30 m³ de água por dia, dos quais cerca de 10% serão destinados ao resfriamento.
No Rio de Janeiro, o gigantesco Rio AI City, que prevê até US$ 65 bilhões em investimentos ao longo da próxima década, incorpora energia renovável, eficiência hídrica e reúso de água em seu planejamento.
Nos Estados Unidos, a EPA colocou em seu Water Reuse Action Plan 2.0, lançado em 2026, uma ação específica para ampliar o uso de água reciclada no resfriamento de data centers.
Ou seja, como eu sempre digo, tecnologia existe. Talvez a discussão esteja menos em proibir a nuvem de beber e mais em exigir que ela mostre a conta d’água.
Governança focada em trazer o equilíbrio financeiro ambiental será vital nos próximos anos. Se sua empresa contrata serviços de nuvem, entenda qual é o WUE do fornecedor. Se sua cidade vai receber um data center, pergunte de onde virá a água, quanto será consumido e quanto retornará ao sistema.
Porque aquilo que não medimos dificilmente conseguimos administrar.
A nuvem já pousou por aqui. Agora precisamos decidir quanta água estamos dispostos ( ou podemos) a oferecer a ela e o que queremos receber de volta.
Veja também: Diversidade não é ideologia. É inteligência empresarial