
É curioso. Durante décadas fizemos de tudo para esconder os rios das cidades. Hoje gastamos bilhões tentando resolver os problemas que essa decisão ajudou a criar.
Enquanto acompanhava as notícias sobre a onda de calor recorde na Europa, uma pergunta veio à mente, quanto tempo falta para essa conversa deixar de ser “sobre eles” e passar a ser “sobre nós”?
Como sabemos, as mudanças climáticas deixaram de ser um tema restrito a cientistas ou ambientalistas. Elas já influenciam a economia, a saúde pública, a segurança hídrica, a produtividade das empresas e a qualidade de vida de todos nós.
Basta olhar para São Paulo. Pouca gente imagina que, sob ruas, avenidas e edifícios, correm mais de 400 rios e córregos canalizados ou soterrados ao longo do crescimento da cidade. Durante muito tempo, acreditamos que esconder os rios era sinônimo de progresso. Hoje entendemos que, ao afastar a água e a natureza do ambiente urbano, também reduzimos a capacidade das cidades de enfrentar o calor extremo, absorver chuvas intensas e manter um microclima mais equilibrado.
O resultado está diante dos nossos olhos, temperaturas cada vez mais altas, enchentes mais frequentes, pressão sobre o abastecimento de água, perda de biodiversidade e custos crescentes para governos, empresas e para a sociedade.
É justamente nesse contexto que as “Soluções Baseadas na Natureza” ganham importância. Apesar do nome técnico, a ideia é simples, trabalhar com os processos da própria natureza para resolver desafios que, por muito tempo, tentamos enfrentar apenas com concreto, asfalto e infraestrutura convencional.
Água limpa, rios vivos, lagos recuperados e vegetação urbana fazem muito mais do que embelezar uma paisagem. Eles ajudam a reduzir a temperatura das cidades, favorecem a infiltração da água da chuva, melhoram a qualidade da água, fortalecem a biodiversidade e aumentam a resiliência diante dos eventos climáticos extremos.
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Não existe economia saudável em um ecossistema doente. Por isso, as cidades mais preparadas para o futuro não serão as que mais construírem. Serão as que aprenderem a conviver melhor com a natureza.
Talvez o maior desafio não seja tecnológico, mas cultural. Durante décadas tratamos desenvolvimento econômico e meio ambiente como interesses opostos. Hoje sabemos que essa divisão simplesmente não faz sentido.
Não haverá cidades resilientes sem segurança hídrica. Não haverá empresas verdadeiramente sustentáveis sem recursos naturais funcionando. E não haverá qualidade de vida em um planeta ambientalmente degradado.
O calor recorde na Europa não é um aviso para eles. É um ensaio para todos nós.
A pergunta deixou de ser se os próximos verões serão mais intensos. A pergunta é se teremos inteligência para agir antes que os impactos custem muito mais do que a prevenção.
Porque prevenir sempre foi mais barato do que remediar. No contexto das mudanças climáticas, isso deixou de ser apenas uma boa prática de gestão. Tornou-se uma necessidade econômica, ambiental e humana.