
Nesta semana, São José dos Campos viveu esse dia. A substituição de três válvulas de grande porte na captação do Rio Paraíba do Sul, antecipada depois que uma delas apresentou falha nos testes, afetou o abastecimento de cerca de 450 mil pessoas. Segundo a Sabesp, aproximadamente 70% da cidade sentiu o impacto, algo em torno de 190 mil ligações. Apenas 20 dos quase 400 bairros não foram atingidos.
A intervenção faz parte de um pacote de R$ 29 milhões em investimentos para modernizar instalações que passaram anos sem a atualização necessária. Segundo a própria companhia, trata-se de uma manutenção preventiva indispensável para garantir a segurança e a confiabilidade do sistema no longo prazo. O problema, portanto, não foi realizar a manutenção. O problema é quando uma infraestrutura envelhecida torna uma intervenção inevitável capaz de interromper a rotina de uma cidade inteira.
A semana escancarou uma verdade que costuma passar despercebida: água não é apenas um tema ambiental nem uma pauta de relatório de sustentabilidade. Água é infraestrutura crítica. É pré-condição para que qualquer economia funcione.
Quem quiser entender ESG sem teoria bastava caminhar pela cidade nesses dias. O lava-rápido que fechou as portas. O restaurante que não pôde abrir a cozinha. A academia sem chuveiro. O condomínio que precisou contratar caminhão-pipa às pressas. Cada uma dessas cenas mostra o “E” do ESG saindo do PowerPoint e entrando diretamente na conta do mês.
E há um dado que deveria preocupar ainda mais do que a interrupção do abastecimento. Segundo o Instituto Trata Brasil, com base no SINISA, o país perde 40,31% de toda a água tratada antes que ela chegue à torneira. Nas 100 maiores cidades brasileiras, esse índice alcançou 45,43% em 2023, contra 35,04% no ano anterior. Quase metade da água produzida se perde em vazamentos, ligações irregulares ou falhas de medição. Enquanto isso, a meta estabelecida pela Portaria nº 490/2021 é de, no máximo, 25%. Ainda estamos muito distantes desse objetivo.
Traduzindo para a vida real, enquanto uma cidade enfrentava dificuldades provocadas pela necessidade de substituir equipamentos antigos, o Brasil desperdiça diariamente um volume de água tratada suficiente para abastecer milhões de pessoas. O episódio desta semana não foi um evento isolado. Foi um retrato de um desafio nacional: a necessidade de investir continuamente na infraestrutura de saneamento para evitar que manutenções essenciais se transformem em crises operacionais.
Mas existe uma segunda reflexão que me inquieta ainda mais.
Hoje já existem tecnologias validadas para restaurar rios, melhorar a qualidade da água, tratar efluentes, reduzir perdas e aumentar a resiliência dos sistemas hídricos. Muitas delas foram desenvolvidas no Brasil e já demonstraram resultados em projetos reais, tanto aqui quanto no exterior.
O que frequentemente impede que essas soluções alcancem escala não é a ausência de ciência nem de evidências técnicas. É o tempo.
São processos regulatórios que levam anos, homologações excessivamente lentas e estruturas de aprovação concebidas para um contexto que já não corresponde à velocidade das mudanças climáticas. O rigor técnico deve ser preservado. Mas rigor não pode ser confundido com demora. Quando uma inovação segura leva anos para chegar à sociedade, o custo dessa espera também precisa entrar na conta.
Água que falta ensina, em poucos dias, o que nenhuma planilha consegue mostrar. Quando falta água, não falha apenas o abastecimento. Param empresas, restaurantes, academias, escolas, condomínios e parte da economia local.
Talvez esteja na hora de entendermos que o “E” do ESG não é sobre parecer sustentável. É sobre construir sistemas resilientes o suficiente para que uma manutenção necessária não interrompa a vida de uma cidade inteira. Porque segurança hídrica não é apenas uma agenda ambiental. É infraestrutura estratégica para o desenvolvimento do Brasil.