
Poucas bebidas carregam tanta identidade quanto o whisky. E, ao contrário do que parece, entender a diferença entre o escocês e o irlandês não é apenas uma questão técnica; é uma questão de comportamento, de história e de imagem.
O whisky escocês nasce de um processo mais rígido e tradicional. Em muitos casos, utiliza cevada maltada e passa por destilação dupla. Mas o ponto que realmente o define é a presença ou não da turfa, usada na secagem do malte.
A turfa é um tipo de solo orgânico formado ao longo de milhares de anos pela decomposição de vegetação em ambientes úmidos. Quando queimada, ela libera uma fumaça densa e aromática que impregna o grão, trazendo ao whisky notas defumadas, terrosas e, para alguns, até medicinais. É um sabor marcante, daqueles que ou conquistam de vez ou afastam completamente.
A própria destilação também ajuda a explicar essas diferenças. No método mais comum escocês, a dupla destilação preserva mais óleos e compostos aromáticos, resultando em um whisky mais encorpado e intenso. Já no estilo irlandês, a tradicional tripla destilação refina ainda mais o líquido, removendo impurezas e criando um perfil mais leve, limpo e suave.
Outro ponto essencial e pouco explicado fora do mundo dos apreciadores é a diferença entre single malt e blended whisky.
O single malt é feito em uma única destilaria, usando apenas cevada maltada. Ele costuma ser mais complexo, com identidade própria, refletindo o estilo da casa e da região. Já o blended whisky é uma mistura de diferentes whiskies, muitas vezes combinando maltes e grãos, criada para alcançar equilíbrio, suavidade e consistência.
E aqui entra um detalhe importante para o Brasil: o blended domina. Rótulos mais acessíveis e fáceis de beber fizeram desse estilo o mais consumido no país, enquanto os single malts ocupam um espaço mais aspiracional.
Dentro desse universo, nomes como o The Macallan ganharam status quase mítico. Mas ele não está sozinho. Destilarias como Glenfiddich e The Glenlivet são frequentemente mais citadas por apreciadores quando o assunto é equilíbrio e tipicidade.
O que diferencia o Macallan é outro jogo.
Uso intensivo de barris de xerez, estética impecável, controle rigoroso de estoque envelhecido e uma estratégia agressiva de posicionamento transformaram a marca em símbolo de luxo. Algumas de suas garrafas estão entre as mais caras já vendidas no mundo.
Mas, curiosamente, preço e prestígio não significam consenso entre especialistas. Para muitos, há whiskies mais interessantes e menos famosos, menos “polidos”, porém mais expressivos.
Ainda assim, o Macallan cumpre um papel que poucos cumprem: ele comunica status instantaneamente.
Do outro lado dessa história está o whisky irlandês e uma lógica diferente, inclusive na forma como se apresenta.

Assim como na Escócia, há single malts e blends na Irlanda. Mas existe também uma categoria muito própria: o single pot still, feito com uma mistura de cevada maltada e não maltada, que entrega textura cremosa e um perfil especiado característico. Tradicionalmente triplo destilado, o whisky irlandês reforça sua identidade de leveza e fluidez desde a origem.
Os blends irlandeses, como Jameson, seguem sendo os mais populares. São leves, fáceis, diretos. Já rótulos como Redbreast (single pot still) ou Bushmills (com tradição em single malts) mostram que há profundidade para quem procura.
Mas, diferente do escocês, o irlandês raramente tenta impressionar pelo peso. Ele conquista pela fluidez.
E é nesse contraste que entra o imaginário.
No final do século XIX e início do XX, gangues urbanas britânicas criaram uma estética própria: ternos alinhados, boinas, elegância calculada e violência direta. Esse universo é recriado em Peaky Blinders.
Thomas Shelby bebe como quem pensa. O whisky frequentemente associado ao estilo irlandês na narrativa não é ostentação. É ferramenta. Está ali para acompanhar decisões difíceis, não para impressionar terceiros.
E talvez essa seja a diferença mais reveladora entre os dois mundos.
O escocês, especialmente em sua face mais icônica como o Macallan, constrói imagem, valor, presença.
O irlandês sustenta ritmo, continuidade, ação.
Um aparece.
O outro permanece.
E é a partir daí que cada um tira a sua própria conclusão.
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Entre mesas em que rótulos como o The Macallan circulam como símbolo de prestígio e narrativas evocam figuras de poder e excessos, o whisky revela muito mais sobre o contexto do que sobre o líquido em si — as famosas festas do banco Master e, do outro lado, o imaginário de Thomas Shelby, em Peaky Blinders, resgatam um tempo em que elegância e violência caminhavam lado a lado — ternos bem cortados, boinas alinhadas e decisões tomadas sem hesitação.
Mas talvez a verdadeira sofisticação esteja justamente na escolha de outro caminho.
Que o whisky seja sempre um elemento de encontro, nunca de excesso inconsequente. Que possamos apreciar um irlandês pela sua fluidez, ritmo e continuidade, e alcançar a complexidade de grandes escoceses — como o próprio Macallan e tantos outros. Por mérito, curiosidade e gosto, não por ostentação.
E que o olhar se amplie.
Porque o mundo do whisky não termina na Escócia ou na Irlanda. Ele se estende pelos bourbons e Tennessee whiskeys americanos, pelos ryes — menos populares no Brasil, mas marcados por um perfil mais especiado (sabores e aroma de especiarias) —, pelos elegantes japoneses, e por produções cada vez mais respeitadas no Canadá, Índia, Austrália, Taiwan e também no Brasil, com destilarias como a Union Distillery, no Rio Grande do Sul, e a Lamas, em Minas Gerais.
No fim, mais do que escolher um estilo, trata-se de escolher uma postura.
Beber bem, com consciência, elegância e respeito, ao tempo, à história e ao que cada copo representa.
Saúde!