
Desde que o homem descobriu que frutas e cereais podiam ser fermentados, percebeu que a vida ficava mais divertida com álcool. Há registros milenares, no Oriente Médio e na China, de cervejas e vinhos usados em festas, rituais e… ressacas históricas. Não demorou para surgirem os primeiros locais dedicados a servir essas bebidas: templos, mercados e, mais tarde, tabernas medievais, onde beber era socializar, fofocar e, às vezes, fazer política sem ser notado.
Com o tempo, essas tabernas evoluíram para o que conhecemos hoje como bar, palavra que vem da barra francesa do século XVIII — aquela madeira ou metal que separava clientes da área de preparo, servia como apoio para os que exageravam na bebida e ajudava a manter a ordem. A barra era o verdadeiro “travesseiro vertical” dos bêbados.
Dois estudantes americanos, fascinados por essa barra francesa, voltaram para os EUA e criaram o American bar, combinando sofisticação e praticidade, dando início à tradição moderna que conhecemos.
1.1 American Bar
O American Bar é chique, elegante e quase teatral. O bartender é a estrela do show, e a música permite conversar sem gritar “repete!”. Alguns bares se tornaram famosos não apenas pelos drinks, mas também pelos pratos — como o carpaccio do Harry’s Bar, em Veneza (local frequentado por Ernest Hemingway e Orson Welles, cineasta de Cidadão Kane).
Receitas
- Clássico: Dry Martini – Gim, vermute seco e azeitona. James Bond (personagem criado por Ian Fleming) aprovou. Winston Churchill (primeiro-ministro britânico) dizia que “o vermute só precisava estar na mesma sala”, porque, para ele, se a bebida estivesse presente, o resto era detalhe.
- Contemporâneo: Cosmopolitan – Vodka cítrica, Cointreau, cranberry e limão. Rosa, glamouroso e perfeito para fotos, imortalizado nos anos 1990 pela série Sex and the City.
Piadas rápidas
“O Dry Martini é tão seco que, se você piscar, ele desaparece do copo antes mesmo de brindar.”
“O Cosmopolitan parece coquetel de festa, mas bate igual chute de cavalo.”
Para mais detalhes, veja também: David Wondrich, Imbibe!, sobre a história da coquetelaria clássica.
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1.2 Pub (Public House)
O pub, ícone da Inglaterra e da Irlanda, surgiu de tavernas, inns e alehouses. Nos pubs, cervejas, whisky e muita conversa são tradição. No Brasil, virou bar temático, com madeira escura, bancos altos, luz baixa e chopes servidos em pint (570 ml).
Foi em pubs que figuras como James Joyce (escritor irlandês de Ulysses) anotavam ideias entre um gole e outro. Em Londres, o The Grapes era frequentado por Charles Dickens (autor de Oliver Twist), que observava tipos humanos e depois os transformava em personagens.
Receitas
- Clássico: Black Velvet – Stout (cerveja escura, encorpada, de origem irlandesa) e champanhe, criado em 1861 para o luto pela morte do Príncipe Albert (consorte da rainha Vitória).
- Contemporâneo: Espresso Martini – Vodka, licor de café e café espresso; criado nos anos 1980 em Londres por Dick Bradsell, combina o ato de acordar e se embriagar ao mesmo tempo.
Piadas rápidas
“No pub inglês, se o chope acabar, todos choram juntos, como se fosse episódio final de série dramática.”
“Se alguém disser ‘só mais uma’ no pub, prepare-se: serão mais cinco.”
Para mais detalhes, veja também: Pete Brown, Man Walks Into a Pub.
1.3 Boteco / Botequim
Botecos são lugares de encontros e histórias, onde qualquer bebida pode virar protagonista. O boteco é a alma do Brasil: democrático, barulhento e cheio de charme.
No Rio de Janeiro do século XIX, eram pontos de encontro de trabalhadores, artistas, poetas e políticos. Noel Rosa (compositor, um dos criadores do samba urbano carioca) escreveu versos em mesas de boteco. O Bar Luiz, fundado em 1887, já foi palco de debates que iam da República recém-proclamada até a escolha do próximo prato do dia. Políticos como Leonel Brizola (ex-governador do Rio de Janeiro) eram vistos em botequins, discutindo projetos entre um copo de cerveja e outro.
A origem do nome é incerta: pode vir de bodega (mercearias dos colonizadores), de botika (do banto africano, que se referia a pequenos comércios) ou do diminutivo de botica (as antigas farmácias). Em todas as versões, o boteco esteve ligado à ideia de vender algo essencial — remédios, mantimentos ou bebidas.
Cardápio clássico
Cerveja gelada de garrafa, cachaça da boa, coquetéis tradicionais como o Rabo de Galo ou o Bombeirinho, e petiscos que são pura poesia: torresmo crocante, ovo colorido, pastel, bolinho de bacalhau e, claro, o lendário tremoço.
Receitas
- Clássico: Rabo de Galo – Cachaça e vermute tinto, criado nos anos 1950. Promovido mundialmente pelo bartender Derivan Ferreira de Souza, o Master Derivan (ícone da coquetelaria brasileira).
- Contemporâneo: Caipirinha de frutas tropicais – Cachaça, açúcar e frutas como maracujá, morango ou jabuticaba.
Curiosidades
A Caipirinha é orgulho nacional: entrou para a lista de coquetéis clássicos da IBA em 1997, foi declarada patrimônio cultural imaterial do Brasil em 2003 e do estado do Rio de Janeiro em 2019.
O Rabo de Galo juntou-se à Caipirinha em 2023, graças ao trabalho de Master Derivan, que viajou o mundo promovendo o drink. Infelizmente, faleceu pouco antes de ver seu sonho reconhecido, mas deixou seu brinde registrado na história dos bares.
Hoje, ambos são embaixadores dos coquetéis brasileiros, provando que, no boteco ou em qualquer outro bar, a verdadeira estrela é a bebida que une pessoas e histórias.
Piadas de boteco
“Se o Rabo de Galo é para os fortes, a Caipirinha é para quem quer abraçar o verão… e esquecer o chefe.”
“Garçom de boteco: consegue ouvir quatro histórias, equilibrar cinco pratos e ainda lembrar do pedido de ovo colorido, torresmo e tremoço.”
“Drink sem álcool no boteco? Você acaba como terapeuta de surpresa.”
Para mais detalhes, veja também: Lira Neto, Uma História do Samba.
1.4 Outros bares
Além dos tradicionais, existem ainda wine bars, piano bars, bares de piscina e temáticos, adaptando clássicos ao público.
Receitas
- Clássico: Spritz Veneziano – Prosecco, Aperol e água com gás.
- Contemporâneo: Negroni Sbagliato – Vermute, Campari e espumante, fruto de um engano em Milão que virou sucesso internacional.
Piadinha final
“Todo bar é palco de histórias; se você nunca se atrapalhou com a bebida, é porque ainda não entrou num boteco no horário do almoço.”
Brinde final
No fim das contas, seja no American Bar elegante, no pub animado ou no boteco raiz, o que vale é brindar com bom humor, ouvir histórias, provar receitas e respeitar a barra de madeira ou metal do bar, fiel amiga que suporta bêbados atrapalhados desde o século XVIII.
E como o boteco é democrático por natureza, vale lembrar: o brinde também pode ser feito com água ou suco — afinal, o que importa não é o teor alcoólico do copo, mas a vontade de celebrar junto.