
Nos dias 21 a 23 de maio haverá a Bienal do Lixo, que acontecerá no Parque Villa-Lobos, em São Paulo. Fui convidado para um painel no dia 22 de maio, que será sobre rios e oceanos, tema que conecta diretamente os resíduos que produzimos à saúde das águas que nos sustentam.
Desde que recebi o convite, muitas reflexões têm surgido no meu estudo e preparação para a Bienal. Uma delas é a que divido aqui: afinal, estamos mesmo olhando para as prioridades certas quando falamos de meio ambiente?
Sempre repito os dados da Agência Nacional de Águas (ANA): o Brasil já acumula mais de 114 mil quilômetros de rios degradados ou poluídos. E no bioma da Mata Atlântica, onde está o Vale do Paraíba, 90% dos rios estão em situação regular, ruim ou péssima, de acordo com o relatório da SOS Mata Atlântica de 2024. O cenário é alarmante. Mas a tragédia não é só ambiental, é também social, econômica e ética.
De acordo com o Instituto Trata Brasil, o país despeja mais de 5.500 piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento por dia em seus rios. E vale lembrar: os rios deságuam nos oceanos, ou seja, a poluição que começa no córrego da nossa rua atinge manguezais, recifes, praias e comunidades pesqueiras. Está tudo conectado. Mas seguimos agindo como se não estivesse!
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No Vale do Paraíba, o rio Paraíba do Sul, que abastece 15 milhões de pessoas, sofre com ocupações irregulares, perda de mata ciliar, despejo de efluentes e pouca regeneração.
O que vemos é um reflexo de como os rios são tratados no Brasil: na frente das casas na Europa, Austrália, EUA, e no fundo das comunidades aqui, como se fossem esgoto, como se não fizessem parte da vida de quem os descarta.
E o que acontece quando os rios não podem mais sustentar a vida?
Não é alarmismo ecológico. É um impacto socioeconômico grave. Um país que depende majoritariamente do agro, como o Brasil, não pode sobreviver com rios mortos. O café do sul de Minas, a soja no norte do Centro-Oeste, a pecuária, a irrigação, tudo depende da vitalidade hídrica.
São esses rios que poderiam ajudar a mitigar os efeitos das mudanças climáticas, mas do jeito que caminhamos, talvez nem isso seja mais possível. Quando a água acaba, não se trata só de biodiversidade: trata-se de colapso econômico:
- O “E” de ESG (ambiental) entra em colapso: perda de biodiversidade, crise hídrica, desequilíbrio climático e desertificação.
- O “S” de social rui junto: aumento de doenças, insegurança alimentar, desigualdade hídrica e comunidades ribeirinhas invisibilizadas.
- E o “G” de governança falha: outorgas mal distribuídas, falta de transparência no uso dos recursos e ausência de uma gestão integrada por bacia hidrográfica e fiscalizações.
É aí que entra um conceito que defendo há tempos: crédito hídrico. Falamos de recompensar CO₂, reflorestamentos, mas sem a água nada se sustenta. Assim como já existem os créditos de carbono, por que não remunerar empresas, produtores e municípios que regeneram rios, nascentes e mananciais?
Reflorestar mata ciliar, tratar esgoto, reter água da chuva, devolver água limpa ao ciclo — tudo isso deveria gerar um ativo ambiental líquido, auditável, negociável e recompensável. Porque regenerar água não é gasto. É investimento em resiliência, saúde e futuro.
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Existem bons exemplos: segundo o CDP, empresas que gerenciam riscos hídricos têm 18% mais desempenho financeiro do que aquelas que não o fazem. Uma empresa de São José dos Campos, a Salus Engenharia, ajuda a AMBEV a recuperar mais de 42 milhões de litros de água por ano em apenas uma planta no Rio de Janeiro, e o somatório de todos os seus clientes ultrapassa números impressionantes.
O que falta? Escala
Falta uma política pública nacional que incentive, monetize e integre a regeneração hídrica com responsabilidade compartilhada. Falta visão. E falta vontade.
Porque sem rios, não há vida. Eles são as veias que abastecem todo o ecossistema do planeta. E sem regeneração, seremos apenas um país de planos bonitos e águas mortas. Está na hora de tirar os rios dos fundos das casas e trazê-los de volta para a frente das decisões.
Porque quando um rio morre, não é só ele que perde. É toda a sociedade e seu futuro que morrem juntos.
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