Artista e produtores culturais esquentaram os teclados na nova temporada de projetos do PROAC 2025, o Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo. Com cota aumentada para o interior paulista, as chances de ser aprovado aumentaram. Capacidade profissional e criatividade não faltam.
Aumentam também os concorrentes e muitas vezes uma nota 9,7 no projeto não garante aprovação, mas com certeza sinaliza muita qualidade.
No último dia de envio dos projetos o sistema trava. Lição aprendida, enviar com antecedência. O que é um esforço enorme dada a complexidade dos anexos a serem preenchidos, assinados. E o prazo é curto.
Neste ano de 2024, dezenas de projetos do PROAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo) estão sendo executados em São José dos Campos, cumprindo contrapartidas generosas para o público em geral. Talvez tenha uma maneira de saber quantos milhões de reais já entraram na economia criativa de São José dos Campos por meio do PROAC e dos artistas produtores municipais. Não é exagero.
São projetos de criação e montagem de espetáculos, de circulação por outras cidades, de salas de cinema, de manutenção dos espaços culturais, de exposição de artes plásticas em espaços alternativos, de capacitação em produção cultural, shows musicais, dança, circo etc. As contrapartidas incluem oficinas, workshop, palestras, cursos. Tudo grátis.
Essa vitalidade que já comentei algumas vezes continua presente no mundo paralelo da arte e cultura que são os espaços independentes, um circuito alternativo e profissional. Alternativo no sentido de não institucional.
Constância de projetos aprovados, executados e finalizados com sucesso coloca os profissionais da arte e cultura de nossa cidade num grau de excelência a ser aplaudido de pé.
A urgência dos artistas em elaborar a história viva nos apresenta relações entre pesquisas do passado e análises do presente em narrativas contemporâneas, nos ajudando a perceber essa multiplicidade fragmentada que é nossa cidade tal qual o mundo.
A importância da arte de documentar o momento atual é uma oportunidade para nós de leitura e reflexão. De se emocionar e se reconhecer ali. A capacidade dos artistas de lerem imagens e decifrarem narrativas ocultas é ampla, elaborada e construída por experiências criativas constantes. Vem daí nossos posicionamentos críticos. Aprendemos a ler além da primeira camada.
Uma outra boa leitura de +Arte na Cidade: Temos muito cinema gratuito por aqui, com clima de cineclube
Afinal, quais são as ideias que animam os artistas para criar, planejar e produzir algo? O que vai influenciar muito são suas experiências de vida, origens e suas capacidades de elaborar novas relações com as questões humanas.
Filmes e espetáculos de fora da cidade são entretenimentos muito bem-vindos, mas aqueles que dialogam com nosso território são os artistas locais. Muitos espetáculos propõem questões universais como o grandioso “Ficções”, com a maravilhosa Vera Holtz, que se apresentou por aqui, no Teatro Colinas.
Agora, investigar nossa história local e regional, nossas especificidades e o mais importante que é sinalizar nossa estética compartilhada, somente os artistas habitantes daqui conseguem realizar e fazer emergir uma ou diversas matrizes alternativas. Em alguma delas, nos reconhecemos, podemos dialogar e nos valorizamos, elaboramos mudanças e questionamos por elas.
O recente espetáculo “Aurora”, da Cia de Teatro a Blau Quer Falar, conta sobre a vida e obra da artista plástica joseense Aurora Cursino, nascida por volta de 1890. Fugindo de um casamento forçado, vai para o Rio de Janeiro e mais tarde será internada no Complexo Hospitalar do Juquery, em São Paulo. Meu primeiro contato com suas obras foi na mais recente Bienal de SP.
Qual nosso menu de opções?
Um benefício, uma estratégia, uma perspectiva, uma necessidade, uma urgência, seria fazer uma colagem, incluir essa rede criativa e comprovadamente profissional nas decisões das políticas públicas da cultura do município.
Um desperdício de paletas vem ocorrendo seguidamente. O tempo da política não é o da percepção criativa e da necessidade coletiva. Submetidos à contemplação fascinada do poder e acordos estabelecidos pós e a priori se traduzem em previsíveis caricaturas. Personagens miméticos.
Façam acordos também com a arte, cultura e a ciência senhores. Das maiores qualidades dos artistas e cientistas é a criatividade, inovar em técnicas e ideias. Relacionar experiências com habilidades de especialistas trazendo novas perspectivas para o coletivo. Nossos problemas globalizados estão além das dimensões simplórias dos gabinetes e tapinhas nas costas.
Nossa cidade é um campo fértil da ciência e arte nacionais. “A simplicidade é o último grau de sofisticação” e “Quem pensa pouco, erra muito” são frases do polímata do Alto Renascimento, Leonardo Da Vinci.
Situação bizarra essa assemblage em que políticos transitam fogosamente, sem timidez, antropofagicamente, na arte e cultura. Entre características dadaístas e futuristas, elaboram personagens cada vez mais fakes. Puro vanitas.
Surgem imagens que querem nos confundir e confundem mesmo, pois usam estruturas bem estudadas, definidas, associadas às redes sociais, clichês sem conteúdo programático.
Você pode gostar: Potências de criação: saúde mental e arte contemporânea
Entre afagos no passado e picuinhas no presente, as mesmas personas políticas se apresentam como “inimigos” na atualidade tal qual um shock-art dadaísta, simulando diferenças para ofuscar suas similaridades quase idênticas. Rômulo e Remo aspirados a Cosme e Damião quase univitelinos.
E quem não consegue identificar precisa desenvolver seu repertório imagético. Uma dica são as próprias imagens do passado recente. As imagens não são somente ilustrativas, mas produzem o contexto que estão inseridas, têm autoria, tempo e agência.
“Nosso presente anda, mesmo, cheio de passado, e a história não serve como prêmio de consolação.” A frase é de Lilia Schwarcz, uma das historiadoras e antropólogas mais renomadas do Brasil.

Acompanhe também: