
É irônico e vale a pena. Não temos todas as respostas e, hoje, as perguntas mais interessantes e necessárias são feitas por artistas, cientistas e pesquisadores. Você pode não ter o hábito de se informar e ajustar suas percepções neste momento extraordinário em que vivemos, mas, com certeza, é afetado diariamente.
Uma inquietação diante do desconhecido, se for mais duradoura, transforma-se em ansiedade e influencia toda a sua performance na vida. Para alguns, a ingenuidade é reconfortante ao banalizarem os fatos; para outros, é inescapável querer se aproximar mais desta experiência sem precedentes a que a humanidade chegou.
E, nesse processo corajoso, percebemos que sempre foi por meio do nosso trabalho contínuo naquilo em que acreditamos, em conexão com tantos outros em seus respectivos ofícios, que superamos, recriamos e permanecemos existindo — um movimento transgeracional desde sempre.
Estão nessa camada: a arte, a ciência, a pesquisa, a cultura, a educação, a ancestralidade, a ecologia. O domínio de poucos e a exploração capitalista extrema dos nossos recursos nos trouxeram até este novo ponto de virada, ameaçador.
“O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer: agora é a época dos monstros.”
Frase apropriada do filósofo italiano Antonio Gramsci, de 1930, digna de ser repensada. Que maravilha termos a história para acessar e trazer faíscas que nos permitam elaborar novas perspectivas. Os monstros nos ameaçam; os sintomas são as atrocidades diárias que passam pelas pontas dos nossos dedos. E o novo mundo luta para nascer, está germinando. É um grande esforço, mas precisamos olhar nossa história: temos nossas memórias e sonhos que os “monstros” tentam eliminar por meio de narrativas muito bem construídas.
Os processos artísticos estão fortemente apropriados do gesto, da textura, do imperfeito, da necessidade de deixar clara a humanidade em detrimento de uma estética homogeneizada e sem a presença do sensível. Práticas mais artesanais e técnicas ancestrais exploram estéticas integradas à tecnologia, elaborando possibilidades de existência em harmonia. São pontos de conexão inéditos, numa nova categoria expressiva. É a nossa possibilidade de novas perguntas.
Práticas com encontros para experiências coletivas, em qualquer expressão artística, vêm sendo estimuladas cada vez mais por galerias e museus antenados com esta urgente — e ao mesmo tempo antiga — necessidade humana de elaborar simbolicamente e expandir sua capacidade cognitiva. Nesses encontros, a afetividade acontece; o estranhamento diante do erro, que não é erro, mas processo, é permitido; diálogos e trocas de histórias e experiências fluem num ritmo próprio da escuta.
Mais por Pitium Bomfin:
A camada transgeracional que sempre atuou na arte e na cultura, acreditando na importância de elaborarmos nossas histórias, mesmo pelos percursos mais árduos, sobrevive e se integra a um público cada vez mais interessado e curioso.
Nossa cidade, São José dos Campos, tem o privilégio de contar com uma agenda cultural independente que acontece e cria conexões — uma rede criativa potente e muito pouco valorizada. É um desafio elaborar a construção de experiências contínuas e inovadoras, com densidade simbólica e consistência intelectual.
Agendas inovadoras
A Casa Zaya (@casa.zaya), recentemente aberta pela artista plástica Fabíola Canedo, inova com atividades artísticas coletivas, além de exposições de artistas. Veja a agenda no Instagram e visite a exposição Concerto Ele-mentar, da artista Cidinha Ferigoli.
No Vicentina Aranha, durante 20 dias, a exposição Papel Social (@papelsocial.expo) ofereceu oficinas de colagem. O CAEB (Centro Ambiental Edoardo Bonetti) — (@caebsjc) — , passa por um processo de integração de linguagens artísticas que vem expandindo seu educativo e propicia visitas guiadas, além de experiências artísticas em música e artes plásticas. Em breve, será inaugurada a quarta obra em sua mata, Floresta em Pé, dos artistas convidados Cesar & Lois.



(Créditos: Cesar & Lois)Seguimos na agenda com a oportunidade de apreciar e experimentar técnicas de estamparia na exposição Fina Estampa, que acontecerá em maio no Vicentina Aranha. Teremos quatro artistas que pesquisam a gravura e seus processos tradicionais e contemporâneos. Acompanhe pelo Instagram da Galeria Poente (@galeriapoente) e participe. E para informações culturais contínuas de nossa cidade siga a Agenda Cultural SJCampos (@agendaculturalsjcampos).
O presente não é perpétuo. Necessitamos elaborar perspectivas mais amplas e cultivar urgente laços de comunidade. Festas e eventos sociais não bastam. Precisamos de experiências contínuas com elaboração simbólica, criar respostas ao excesso de telas, estabelecer políticas públicas culturais que finalmente cheguem para todos na cidade, respeitando a diversidade de identidades e comunidades. Um sistema flexível, inclusivo, que propicie o encontro, a criatividade e o exercício do diálogo.
Mais do que eventos, precisamos de experiência. Mais do que consumo, elaboração. Mais do que telas, presença.
Excelentes reflexões. Nesses momentos de transição precisamos redobrar nossa capacidade de questionamento. E para isso a Arte é um dos veículos mais importantes.
+ Arte por aqui!
Grãos germinantes para mentes férteis. obrigada Pitiu